Poesias em Tübingen – Por Manuela Marques Tchoe

Manuela Marques Tchoe é executiva de marketing em Munique e blogueira do “Baiana da Baviera¨, um blog de cultura & literatura. Sempre em busca de um olhar diferente sobre os aspectos cotidianos da Alemanha e do mundo.

Nos perdemos na estrada em direção à cidade de Dinkelsbühl (com trema) visto que, num engano inocente, seguimos o caminho para rua Dinkelsbuhl (sem trema), no meio do nada. Mesmo ruins de direção (quem sabe onde iríamos parar?) deixamos Dinkelsbühl para outro dia e fomos parar em Tübingen, cidadezinha central de Baden-Württenberg, onde perdemos nossos corações para um lugar de poesia e música. Uma bela surpresa, nos vimos encantados com a pequena cidade e sua História, no fundo sabedores de que às vezes precisamos nos perder para encontrar algo especial. Assim foi o nosso inesperado dia em Tübingen – no dialeto local chamada de Tubinga: um delicioso passeio!

Passeios de barco pelo Neckar quase ao estilo veneziano
Passeios de barco pelo Neckar quase ao estilo veneziano

Romance em palavras e números

Nem meu marido alemão sabia da existência de  Tübingen e de sua aparente fama no meio acadêmico e literário. Sim, porque gigantes da literatura e da ciência deixaram marcas indeléveis em caminhos, casas e conhecimento nessa cidade. Do grande poeta alemão Goethe – que morou em Cottahaus em Münzgasse 15 e, de acordo com uma placa na casa ao lado, vomitou ali mesmo (seja lá porque motivo), até Hermann Hesse, que também caminhou pelas ruas antigas ao fazer um estágio na livraria Heckenhauer entre 1895 – 1899.

¨Aqui comprava Goethe suas moedas... e onde ele morou também¨, diz o cartaz da casa onde o maior poeta alemão viveu. Hoje é uma loja de moedas antigas.
¨Aqui comprava Goethe suas moedas… e onde ele morou também¨, diz o cartaz da casa onde o maior poeta alemão viveu. Hoje é uma loja de moedas antigas.

Poetas como Ludwig Uhland e Friedrich Hölder também deixaram pistas de um passado artístico, assim como cientistas do calibre de Johannes Kepler, figura-chave da revolução cientítica do século XVII.

Resquícios das muralhas que antigamente rodeavam a cidade medieval
Resquícios das muralhas que antigamente rodeavam a cidade medieval

Passamos pelos resquícios das muralhas, subindo o vaivém de ladeiras em direção ao castelo no ponto mais alto da cidade (Burgsteige), onde passamos pela casa 7, antigamente casa do astrônomo Michael Maestlin, professor de Kepler. As casas em estilo enxaimel se acumulam na subida até chegarmos no destino final do momento – o Schloss Hohentübingen, não ¨apenas¨ um castelo para o deleite de turistas: a linda construção também abriga um museu arqueológico e algumas faculdades da famosa universidade local. Quem não gostaria de estudar num castelo?

¨Aqui descobriu Friedrich Miescher o ácido nucleico em 1869¨, diz a placa no castelo de Hohentübingen
¨Aqui descobriu Friedrich Miescher o ácido nucleico em 1869¨, diz a placa no castelo de Hohentübingen

Música aos pés do Neckar

Retornamos contentes à praça principal da cidade e lá nos deixamos levar pela beleza da prefeitura (Rathaus) que contém um relógio astronômico, talvez em referências aos grandes nomes da ciência que por ali passaram.

A bela prefeitura de Tübingen é um dos destaques da cidade com um relógio astronômico no topo
A bela prefeitura de Tübingen é um dos destaques da cidade com um relógio astronômico no topo

Através da Marktplatz em direção à igreja – em frente do local vomitado por Goethe – encontramos um grupo de estudantes de música que nos presentearam com um concerto de violoncelo a céu aberto. Já nos sentindo aconchegados nesse clima cheio de graça, nos sentamos no chão e nos deixamos encantar por sons antigos dedilhados por mãos jovens.

Como não se encantar com essa cidade notoriamente musical? Um concerto em frente à catedral.  
Como não se encantar com essa cidade notoriamente musical? Um concerto em frente à catedral.

Saímos do nosso transe musical para dar tempo de conhecermos outros encantos de Tübingen. Andamos em direção ao rio Neckar, das pontes vimos pessoas de todas as idades passeando de barco, uma mini-Veneza vislumbrando casas enxaimel e uma ilhota, a Platanenallee.

Platanenallee, um passeio por entre grandes árvores com vista privilegiada para o rio Neckar.
Platanenallee, um passeio por entre grandes árvores com vista privilegiada para o rio Neckar.

É nesse pedaço de terra que corta o rio onde passeamos por entre árvores centenárias, um pequeno parque que nos leva até o Bosque dos Sussurros (Seufzerwäldchen) ao final, onde de encontra o único monumento dedicado a uma escritora feminina em Tübingen, Ottilie Wildermuth. É também nesse passeio que avistamos o Hölderlin Turm, a casa do poeta Friedrich Hölder, que hoje abriga um museu literário. Fiquei na vontade de visitar o memorial, mas vai ficar para a próxima visita.

Por trás do encantamento, um negro passado

Quando vivemos há muito tempo na Europa, nos acostumamos com a beleza de cidadezinhas medievais, com as artes que pairam no ar. Mesmo depois de doze anos na Alemanha, minha visita por Tübingen me fascinou. Como uma pequena Paris no centro da cultura suábia, Tübingen foi um centro cultural que atraiu artistas, escritores, cientistas.

Tübinger-Vista comum no centro da cidade
Tübinger-Vista comum no centro da cidade

Mesmo assim, essa cidade pitoresca também sofreu com a escuridão do nazismo, onde a famosa universidade local teve uma participação ativa no período mais cruel da história alemã. Não só o semitismo tomou conta das relações universitárias, com os poucos professores judeus expulsos da instituição, mas como universidade de ponta as áreas científicas que serviam ao propósito nazista foram promovidas e financiadas. Por exemplo, em Tübingen criou-se a primeira cátedra de Estudos Raciais, em 1934. Foi lá também que genealogistas procuravam por pistas da ancestralidade supostamente superior dos arianos, a ciência usada em prol de motivos políticos e raciais.

A cidade, considerada patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, passou por cima desse passado negro, e hoje inspira beleza, simpatia e juventude. Por todo lugar, do centro renovado até a alegria de quem passeia de barco ou toma uma cerveja gelada no Biergarten com vista privilegiada para o rio, é visível como Tübingen deixou o breve passado negro e retomou a estrada da cultura, da literatura e da ciência, um lugar especial onde vale a pena conhecer sua rica história.

Vista para a Hölder Turm pela Platanenallee, com uma gôndola local ao fundo.
Vista para a Hölder Turm pela Platanenallee, com uma gôndola local ao fundo.

 

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Última atualização deste post: 13/12/2017

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