Ooops, estou na Alemanha! E agora?

Escolhi este título propositadamente, como provocação, pois me parece que aumenta o número de imigrantes brasileiros na Alemanha que reage exatamente assim: alguns vêm para cá sem refletir muito, mudam de país como quem muda de bairro e se veem “de repente” deparados com um monte de problemas, com os quais não sabem lidar, alguns deles bastante sérios, com consequências existenciais.

Foi diante disso que resolvi escrever este artigo, convidando você, brasileiro ou brasileira, que está emigrando ou pretendendo emigrar para a Alemanha, para parar um pouco e refletir.

Tentei resumir aqui alguns aspectos a serem observados por quem quer emigrar, sem nenhuma pretensão de saber nada melhor, mas com a intenção de talvez ajudar um ou outro a ver a coisa de uma forma mais realista e assim evitar alguns problemas.

De forma alguma quero criticar quem quer que seja, pois creio que cada um é livre para caminhar com as próprias pernas e na direção que quiser. Acho uma loucura mudar de país como alguns fazem, sem qualquer preparação, muitos sem nem saber qualquer idioma estrangeiro, mas creio que principalmente os “loucos” têm um anjo da guarda forte e, se não forem extremamente imprudentes, isso pode também dar certo. Só penso que é besteira ficar reinventando a roda constantemente, ao invés de aprender com as experiências já feitas por outros brasileiros.

Tenho observado brasileiros e brasileiras em redes sociais, tenho conversado com pessoas recém-chegadas do Brasil e tenho coletado informações (certas ou erradas) sobre a Alemanha que andam circulando entre brasileiros. E aqui tento resumir de forma clara alguns tópicos que acho essenciais para qualquer um que esteja querendo mudar para cá:

Mudar de país não é mudar de bairro – reflita bem!

Acho que este é o ponto principal antes de tomar a decisão de emigrar para a Alemanha. Não tome essa decisão às pressas, reflita, pondere as consequências dessa atitude, se informe bem e tente entender da forma mais objetiva possível o que esse passo significa. Mudar de país não é a mesma coisa que mudar de bairro ou de cidade dentro do próprio Brasil, pois você não será confrontado somente com um lugar diferente, mas também com outro idioma, outra cultura, outra mentalidade, outro clima e outra realidade social.

Se for possível, venha primeiro a passeio, dê uma olhada, veja primeiro a Alemanha sem compromissos e antes de se desfazer de toda sua vida no Brasil para aventurar uma emigração. É claro que não dá para conhecer o país durante um passeio de algumas semanas ou meses, mas isso ajuda a ter uma ideia mais clara de que Brasil e Alemanha são mundos muito diferentes.

Tenha cuidado com os “especialistas” e opiniões de terceiros!

Sim, é importante se informar e aqui outros brasileiros, que já fizeram a experiência de emigrar para a Alemanha, podem ajudar muito, mas tenha cuidado, seja crítico e avalie bem as informações recebidas, principalmente quando elas forem fornecidas por um “fracassado”, por alguém que veio e não conseguiu se dar bem. Por quê? Porque essas pessoas, em geral, têm a tendência de projetar seu “fracasso” na Alemanha, de culpar os alemães e sua mentalidade, de procurar o “culpado” por seu malogro fora de si, ao invés de perceber que seu “fracasso” é pessoal e que não pode ser coletivizado, que não pode ser projetado “nos outros”. E também porque alguns recém-chegados costumam acreditar que entenderam rapidamente a realidade alemã, transformando suas impressões e interpretações em “realidade concreta/absoluta”, propagando não raramente informações erradas sobre a Alemanha.

Informe-se, mas seja crítico, veja bem de onde a opinião está vindo, tente filtrar as informações e tenha cuidado com a insatisfação pessoal de alguns.

Aprenda o idioma!

Se você fala inglês, isso lhe ajudará no início, mas não é suficiente para viver aqui. Você vai ter que aprender o idioma alemão de um jeito ou de outro, caso queira viver uma vida normal por estas bandas. E isso vale ainda mais se você estiver saindo do Brasil falando fluentemente somente o português. Vir para a Alemanha sem falar alemão é se candidatar ao cargo de SURDO (você escuta, mas não entende!), MUDO (você quer falar, mas não pode, e se fala, ninguém entende!) e ANALFABETO (você vai ver textos e não vai saber lê-los, e escrevê-los muito menos!).

Quem já passou por isso, sabe muito bem do que estou falando: é horrível estar em um país e não poder se comunicar com as pessoas e não saber nem expressar suas necessidades mais essenciais. Portanto, antes de vir para a Alemanha, aprenda alemão da melhor forma possível, pelo menos o básico.

E depois que chegar aqui, continue estudando, visite cursos e tenha consciência que o aprendizado de um idioma requer alguns anos de esforços e algum talento. Sem saber o idioma, é praticamente impossível se integrar, o que vale para qualquer país e não somente para a Alemanha.

Seja realista: a Alemanha não é um paraíso!

Não faça o erro cometido por alguns, que vêm para cá acreditando que isso aqui é um paraíso, achando que vai ser tudo fácil, que há empregos e moradia à vontade, que você vai ficar rico em pouco tempo (eu já estou aqui há muito tempo e ainda não consegui juntar nenhuma fortuna!) e que basta pisar em solo alemão para que tudo se resolva. Faça isso e você será muitíssimo decepcionado. Prometo! Pois sempre nos decepcionamos quando temos expectativas exageradas e muito longe da realidade.

A Alemanha é um lugar bom de viver, com uma realidade social e econômica muito mais agradável que no Brasil, mas isso não significa que tudo é uma maravilha.

Aqui também há problemas, aqui também são colocadas pedras em seu caminho, aqui também é necessário correr atrás das coisas. Se você vai ter sucesso aqui ou não, depende de sua abertura em relação à nova cultura, de seu nível idiomático, de sua formação profissional e principalmente de sua disposição de pegar no batente.

Mantenha os pés nos chão, seja sóbrio e sereno e veja as coisas como são e não como você gostaria que elas fossem.

Qual sua formação profissional?

É muito aventureiro vir para a Alemanha sem ter uma formação profissional adequada. É uma ilusão achar que você vai chegar aqui e ganhar a vida como garçom/garçonete, fazendo faxinas ou lavando louça em algum restaurante. Tenha consciência de que muita gente pensa isso, a Alemanha já está cheia desses aventureiros e que não é nada fácil ganhar a vida desse jeito.

Talvez você tenha uma formação profissional favorável, como nas áreas de informática, saúde ou engenharia. Isso facilitaria muito sua vida aqui (caso fale bem o alemão!). Mas se você não tiver uma profissão muito procurada ou mesmo nenhuma formação, a coisa pode ficar difícil. Reflita então se não seria melhor vir para cá disposto a aprender primeiro uma profissão aqui, o que poderia abrir as portas para um futuro melhor. Você teria que investir alguns anos de sua vida em escola/universidade, mas teria uma maior chance, a longo prazo, de ser um emigrante bem-sucedido.

E caso você esteja vindo com a ideia de montar algum negócio sensacional, já lhe digo: já há um monte de escolas de capoeira, de boleiras e boleiros, doceiras e doceiros por aqui, já tem cafés, restaurantes e até livrarias brasileiras, o mercado de pipocas já se encontra nas mãos de outro brasileiro, chinelos e biquinis se acha fácil na internet, capirinha se compra em qualquer canto e feijoada tem sempre em algum lugar por aí. Venha com uma ideia realmente original e o devido capital ou é melhor repensar, pois a concorrência anda forte.

Para trabalhar oficialmente aqui você precisa de um visto de trabalho!

Muita gente acha que basta chegar na Alemanha e começar a trabalhar. Qualquer brasileiro pode entrar na Alemanha como turista por três meses sem necessidade de visto, mas isso vale somente para TURISMO. Com esse status, você pode passear, fazer fotos, comprar cartões postais, ficar parado na frente de atrações e admirar e até fazer curso de alemão, mas não trabalhar. E não é tão simples conseguir um visto de trabalho. Normalmente é necessário já ter uma vaga em uma empresa e contrato de trabalho assinado. Sem isso, não é possível conseguir a permissão de trabalho, exceto para cônjuges de alemães ou para quem possui um passaporte de um país-membro da União Europeia.

O custo de vida é alto!

Você está vindo de bolso vazio ou com pouco dinheiro? Então tenha cuidado, pois o custo de vida na Alemanha é alto, o euro vale bem mais que o real e aquele dinheirinho que você economizou para trazer vai ser gasto rapidamente. Ao chegar aqui, você vai precisar de uma moradia, pelo menos de um quarto, que você dificilmente conseguirá, por exemplo, em Berlim, por menos de 200 a 300 euros por mês.

Você terá ainda despesas com o transporte público (bilhete do metrô em Berlim: 2,60 euros), seguro de saúde, alimentação, telefone/internet e inúmeras outras coisas. Portanto, se você vem sem uma fonte de renda garantida aqui, traga dinheiro para viver pelo menos um ano ou se prepare para passar apertos financeiros sérios.

Não subestime o inverno!

Muitos brasileiros vêm para a Europa achando que o inverno não é nada demais, que vai adorar ver neve e que tudo vai ser uma grande diversão.

E realmente: o primeiro inverno é interessante para quem não conhece, é divertido jogar bolas de neve na cabeça dos outros e, cheio de casacos, pulôveres e ceroulas, se consegue suportar o inverno de alguma forma. Porém, o mais tardar no segundo inverno, quando a novidade tiver passado, quando se perceber que o dia só amanhece direito às 9 ou 10 da amanhã, já escurecendo às 4 da tarde, que o sol pode desaparecer por semanas seguidas, causando um clima angurriado, fazendo com que as pessoas se recolham em suas casas, quando o contato fica mais escasso e a vontade de sair desaparece, muitos brasileiros caem na realidade e percebem que aguentar o inverno alemão, com temperaturas que podem atingir -20 °C, não é algo tão fácil assim. Muitos entram literalmente em depressão, sentem uma saudade forte do calor brasileiro e têm grandes dificuldades de adaptação.


 

Deixe o “jeitinho” no Brasil: não subestime a realidade alemã!

A realidade da Alemanha é muito diferente da do Brasil. Não adianta chegar aqui despreparado, achando que as coisas se resolverão com algum “jeitinho brasileiro”. Não, isso não funciona na Alemanha! O “jeitinho” e a capacidade de improvisação dos brasileiros podem até ser uma ajuda no âmbito pessoal, mas não funciona no dia-a-dia na sociedade. Não adianta achar que vai furar fila, que algum pistolão vai ajudar, que a coisa vai se resolver de alguma forma. Você irá perceber isso o mais tardar quando for confrontado com a burocracia alemã, que, ao contrário da brasileira, vale para todo mundo, sem exceções. Você provavelmente se verá um dia perante um servidor público em qualquer repartição, que vai lhe dizer um NÃO bem claro, você vai choramingar, chamá-lo de “meu amigão”, tentar convencê-lo a dar um “jeitinho”, sim, você fará de tudo e perceberá no final que o NÃO continua um NÃO.

Não opte pela ilegalidade, não venha para cá achando que vai continuar comprando CDs/DVDs piratas na rua ou baixando música e filmes ilegalmente na internet e nem ache que vai conseguir viver bem aqui sem visto, sem documentos válidos, sem se esforçar para levar uma vida correta. A Alemanha oferece a todos os imigrantes legais boas chances, mas essas chances não são dadas assim de presente. Você tem que se esforçar, correr atrás e fazer sua parte.

Seja aberto: conheça e aceite a cultura e a mentalidade alemães, pois o visitante é você!

Um fenômeno interessante é a resistência de alguns migrantes brasileiros contra a cultura alemã. São pessoas que se negam a aceitar que elas é que são os visitantes em terra alheia e que são elas que têm que se adaptar e não o contrário. Essas pessoas nem percebem o mal que fazem a si mesmas, pois essa postura fechada só aumenta seu próprio sofrimento.

Sim, seja aberto, conheça os alemães, sua cultura e sua mentalidade sem preconceitos. Aliás, tenha muito cuidado com os preconceitos e clichês que andam sendo espalhados por aí. Tente também aqui diferenciar entre realidade e mitos. O povo alemão é mais reservado emocionalmente que o brasileiro, mas não é verdade que ele é um povo fechado para pessoas de fora. Existe racismo na Alemanha, de fato, como existe em qualquer canto, mas os racistas aqui são uma minoria. A maior parte dos alemães recebe migrantes de braços abertos, principalmente se vêm do Brasil, um país que os alemães adoram.

Abra-se para a cultura alemã e para uma diversidade riquíssima que ela nos tem a oferecer. Não fique o tempo todo comparando-a com a cultura brasileira e perceba que podemos aprender muito com ela. Tente conhecê-la pessoalmente, formando sua própria opinião antes de dar ouvido às lamentações de terceiros. Conheço aqui muitos migrantes, das mais diversas nações, e sei que muitos vivem aqui com muita satisfação e outros não. O interessante é que observo que os “mais felizes” são exatamente os “mais abertos”.

Alguns brasileiros sofrem aqui porque não interiorizaram que mudaram de país. Sim, é gente que vive na Alemanha, mas busca o tempo todo o Brasil em tudo, comparando as culturas, reclamando por não poder viver aqui do mesmo jeito que se vive na Terra Brasilis. É gente que tenta ficar só entre brasileiros, não se esforça para aprender o idioma, bloqueia a própria integração e sai depois reclamando da vida na Alemanha. Não faça o mesmo erro! Se para você é importante todos os dias comer feijoada, falar português, ver novelas da Globo, só escutar música brasileira e viver como você viveu até agora, então dou-lhe um conselho claro e sincero: fique no Brasil! Você não vai ser feliz, pois não vai encontrar isso aqui, não da forma que conhece daí.

Sim, seja aberto, seja livre, entenda que todos os cantos do mundo têm seus prós e contras e que sempre podemos aprender muito com qualquer outra cultura, não se feche para o novo e você verá que as coisas caminham de uma forma muito mais fácil.

Liberte seu paladar!

Resolvi acrescentar este tópico, pois acho que é uma coisa que subestimamos muito: a eterna vontade de comer comida brasileira. Isso é mais que compreensível, já que a melhor comida sempre será aquela que se conheceu na infância, mas você vai sofrer muito se tiver grande apego a produtos brasileiros. Tem gente aqui que só anda tensa atrás de algum produto que seja pelo menos parecido com aquilo que está com vontade de comer. Eu chamo isso de SÍNDROME DO PÃO DE QUEIJO (leia também: É POLVILHO! BRASILIEROS NO EXTERIOR E A SÍNDROME DO PÃO DE QUEIJO), que é uma das coisas bastantes procuradas (já andam até compartilhando receitas de como fazer pão de queijo no liquidificador). Correr atrás de produtos brasileiros é uma verdadeira terapia ocupacional! Gostei deste texto, escrito por uma sábia mulher, que vive em Berlim há muitos anos:

“Me lembrei que logo no início, quando vim morar em Berlim, eu também ia atrás de produtos “brasileiros” e vivia em busca de coisas que, na verdade, só são gostosas mesmo no Brasil.

Algumas coisas a gente até consegue fazer/comer/beber aqui, mas existem algumas coisas que só vivem mesmo na nossa memória. Acontece que todos nós, não importa a nacionalidade, desenvolvemos uma memória gustativa e olfativa, entre outras tantas qualidades de memória.

Entao, a caipirinha daqui jamais (ou raramente) terá para nós o sabor armazenado na memória. Me lembro que, no comeco, eu trazia até cubos de caldo de carne na mala. Eu não gostava do sabor que eles têm aqui. Com o tempo, a nossa memória comeca a armazenar os sabores daqui e passa a gostar (ou não).

Se vocês tiverem um paladar afiado, notarão que até a Coca-Cola aqui tem outro sabor. E, se ficarem por aqui tempo suficiente e deixarem de consumir produtos brasileiros, estranharão o sabor de algumas coisas no Brasil. Uma coisa muito comum é a gente deixar de gostar de doces muito doces, como os feitos no Brasil.

Entao, pessoal, para não sofrer com esse tipo de coisa, tentem não comparar. Porque o sabor armazenado na memória vocês raramente encontrarão por aqui.”

Nossa memória apronta ainda mais conosco, não somente no sentido gustativo e olfativo. Com o tempo, depois da primeira fase de integração em outra cultura, costumamos achar que “tudo” no Brasil era melhor: sofremos com o frio e sentimos falta do calor brasileiro (e esquecemos que lá também sofremos com o calor abafado, que só se aguenta com ar condicionado), achamos o povo alemão reservado e começamos a acreditar que no Brasil TODO MUNDO é simpático (o que naturalmente não é verdade), temos dificuldades de adaptação e achamos que no Brasil tudo funcionaria melhor… Ao perceber isso, preferi deixar as lembranças serem meras lembranças e me abrir para a realidade que estou vivendo aqui e agora, ou seja, na Alemanha. E constato: essa abertura é o caminho para sofrer menos quando se vive em outro país. Quem se fecha e se limita a procurar pedaços de Brasil em terra alheia, reclamando do que é diferente, termina sofrendo mais.

E repare ainda um outro problema: se você ficar muito preso aos sabores brasileiros, você poderia perder a chance de conhecer e realmente saborear a cozinha alemã, mas também a turca, italiana, francesa, polonesa, tailandesa e de muitos outros cantos do mundo. Repito: seja aberto, seja livre, e não deixe que o paladar lhe prenda.

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