Você quer aprender alemão? Algumas noções básicas

Você quer aprender alemão? Algumas noções básicas

Informações úteis para quem quer aprender a língua alemã.

Se você se decidiu por aprender alemão, você se decidiu por um idioma muito diferente do português e isso deveria ser a primeira coisa que você deveria interiorizar.

Antes de qualquer coisa, é necessário entender que qualquer idioma não é somente um instrumento de permuta de informações, mas também um canal de expressão da cultura e da mentalidade do povo que o fala. Falar bem um idioma, portanto, só é possível se conhecemos também essa cultura e essa mentalidade.

Assim, aprender alemão significa, em primeiro lugar, entender e aceitar que o alemão que têm uma forma diferente de pensar que um brasileiro e que, consequentemente, também sua forma de falar não é a mesma.

O alemão é um povo mais direto, o que faz com que o idioma seja igualmente mais direto, sem as voltas e os enfeites e sem a dose emocional típicos de línguas latinas. Como esses “adornos idiomáticos” tornam o português mais melódico e até mesmo mais poético que o alemão, o idioma germânico soa em nossos ouvidos como uma língua fria, seca, dura, mas isso, na verdade, se deve a falsas expectativas de quem tenta aprender o idioma sem entender a mentalidade por trás dele, de quem tenta falar alemão, mas sem se desprender da mentalidade brasileira.

Sim, o povo alemão é mais direto, eu diria até mais objetivo, mas ele não é um povo frio, seco, duro como é percebido erroneamente por muita gente. É importante entender que essa percepção ocorre quando estamos muito presos em nossa própria forma de pensar e de falar e esperamos que o povo alemão pense e fale do mesmo jeito, trocando somente as palavras. Mas isso não funciona, pois, como dito, um idioma vai bem além de meras palavras para troca de informações.

Para ilustrar melhor esse problema de percepção, recorro a um exemplo dentro do próprio Brasil, no idioma português: enquanto um gaúcho, por exemplo, pode achar que um baiano tem um modo lento de falar, para o baiano é o gaúcho que fala muito rápido. Então, enquanto um brasileiro escuta o alemão como uma língua dura, seca e fria, o português pode soar em ouvidos alemães como um idioma emocionalmente exagerado e cheio de voltas para chegar ao ponto.

É tudo uma questão de percepção e é importantíssimo para quem quer aprender alemão que entenda isso, que se desligue o máximo possível da forma de pensar brasileira ao falar alemão, não comparando o tempo todo os dois idiomas, já que isso não faz sentido algum quando se tratam de dois idiomas (e mentalidades e culturas) completamente diferentes. Depois de ter entendido e aceitado que o alemão é muito diferente do português, você estará mais livre para aprender esse idioma e, sem as constantes comparações com o português, seu aprendizado será bem mais fácil.

A seguir, gostaria de abordar algumas diferenças básicas e alguns pontos que brasileiros costumam ver como obstáculos para o aprendizado do idioma alemão:

A pronúncia

Não há dúvida de que a pronúncia do alemão é uma das coisas que mais assustam brasileiros por ser muito diferente do português. Mas aqui também vale: não adianta comparar e muito menos adianta ter medo da pronúncia “difícil”. O caminho é aceitar que é assim e pronto.

É importantíssimo entender que em alemão se emenda as palavras na escrita, mas não na linguagem falada, que cada sílaba é pronunciada e que o alemão, em geral, fala como escreve, por exemplo: um “L” tem som de “L” mesmo e não de “U“.

A sílaba tônica em alemão é normalmente a primeira sílaba (arbeiten, schlafen, laden, Gärtner, digkeit, Ärztin…), exceto quando essa primeira sílaba é um prefixo que indica, por exemplo, o passado perfeito (gearbeitet, geschlafen…) ou quando se trata de outro prefixo verbal (beladen, ausschlafen, verarbeiten…). Já no caso de prefixos nominais, a entonação fica na primeira sílaba: Ursache, unecht, Minderwert…

Há palavras com entonação em outras sílabas que não seja a primeira, mas isso normalmente é o caso de palavras de origem estrangeira, como “Nation“, “Politik“, etc. O sufixo “isch” faz com que a sílaba tônica passe a ser a penúltima: “zynisch”, “automatisch”, “moralisch”…

Em palavras compostas (zusammengesetzte Wörter), a entonação vem normalmente na primeira palavra.

O tema entonação é um pouco mais complexo e haveria ainda alguns casos a serem tratados à parte. Aqui me limito a essa noção básica, que com certeza aprofundarei em outra oportunidade.

A letra “A”

A” em alemão é “A” mesmo, sempre aberto e nunca é pronunciado de forma nasal.

E o “A” permanece “A” mesmo quando combinado com outras vogais, como “i“, “o” ou “u“. Ele se altera normalmente quando é acompanhado de um “e“, pois passa então a ser um “ä” (vide abaixo).

A letra “L”

Sim, o “L” no meio de palavras, após vogais, é um problema para muitos brasileiros, que o pronunciam como se fosse um “U“. Assim ocorre de um brasileiro falar, por exemplo, o nome da rede de supermercados “ALDI” e o alemão entender a marca de carro “AUDI“. Então, ao falar alemão, não pronuncie nunca um “L” como um “U“, pois isso estará errado e poderá dificultar bastante o entendimento.

A letra “Z”

O “Z” (tset) se pronuncia como se fosse um “ts“: “Zeit” (Tsáit = tempo), “Zink” (Tsínk = zinco). O “T” é pronunciado bem curto.

A letra “Q”

O “Q” (ku) se pronuncia como se fosse um “kv“: “Quote” (Kvôte= cota), “Quelle” (Kvéle = fonte).

O trema

Outra coisa que assusta muita gente é o uso do trema (Umlaut) em certas palavras. Um brasileiro se assusta ao ler “ä“, “ö” ou “ü“. Como essas vogais são muito usadas no alemão, é importantíssimo aprender a pronunciá-las corretamente.

O trema no alemão é usado sobre vogais articuladas na parte de trás da boca para que o som destas seja trazido para diante, mudando o som das mesmas como se tivesse introduzido o som do ‘e’ adjunto. (Wikipedia)

O “ä” é fácil, pois é pronunciado como um “é” em português. Já o “ö” e o “ü” são mais complicados para um brasileiro, que muitas vezes pronuncia como “o” e “u“. É muito comum escutar brasileiros (ou mesmo outros latinos) falando, por exemplo, “mude” ao invés de “müde“. Pois bem, vou tentar “desvendar o mistério” dessas duas vogais:

O “ö” é praticamente uma mistura de “o” e “e” (alternativamente, pode-se escrever “oe” ao invés de “ö” – o mesmo vale para “ä” = “ae” e “ü” = “ue“, ou seja, pode-se escrever “möchte” ou “moechte“; “Müller” ou “Mueller“). Para quem tem dificuldade de falar o “ö“, eu recomendaria o seguinte exercício: pronuncie em voz alta e longamente as letras “ô” (“o” fechado) e “ê” (“e” fechado), alternando entre uma e outra e tentando falar um som que se encontra entre as duas. Tente encontrar um som que é meio “ô” e meio “ê“. Depois escolha palavras simples com “ö“, por exemplo, “böse” (zangado/mau), “Töpfe” (plural de “Topf” = panela), etc. e exercite um pouco mais a pronúncia.

Depois faça o mesmo como as letras “e” e “u“, já que é entre elas que se encontra a pronúncia correta de “ü“.

A letra “H”

A letra “H” (exceto nas combinações “ch” e “sch” e no meio da palavra para prolongar uma vogal) tem som do “r” ou “rr” como normalmente é pronunciado no português do Brasil, sem rolar, como semiconsoante, de forma idêntica como em palavras inglesas como “happy“, “Ohio” ou “Halloween“. Por exemplo, a palavra hoje em alemão “heute” se pronuncia “róite“.

O “H” no meio de uma palavra, após uma vogal (por exemplo, “zahlen” = pagar) indica um alongamento da vogal, sem ser pronunciado. Repare que é um detalhe importante, já que o pronunciamento curto ou longo de uma vogal pode mudar totalmente o sentido da palavra, por exemplo: “fühlen” (“ü” longo = sentir) ou “füllen” (“ü” curto = encher).

As letras “V” e “W”

A letra “V” (em alemão se diz “fau”) é pronunciada como “F” em português (salvos alguns casos). Exemplo: “Vater” (Fater = pai). Algumas palavras, como Vakuum (vácuo), Vatikan (Vaticano) ou o nome Victor, o “V” é pronunciado como em português.

Já o “W” (em alemão se diz “vê”) tem o som do “V” português: “Wagen” (Vagen = carro), “wollen” (vollen = querer), “Winter” (Vinter = inverno). As poucas palavras onde o “W” é pronunciado como “U” são palavras de origem estrangeira.

Consoantes iguais…

Se houver duas consoantes iguais no meio da palavra (por exemplo, “matt = fosco; “bitte“= por favor, por nada; “Quittung” = recibo, comprovante; “fallen” = cair), a vogal anterior é pronunciada curta.

Vogais iguais…

Se houver duas vogais iguais no meio da palavra (por exemplo, “Haar” = cabelo; “Tee” = chá), elas são pronunciadas como uma única vogal longa.

A letra “ß” (Eszett, scharfes S)

Uma letrinha que assusta, mas sem motivo: ela é simplesmente pronunciada como “ss“, nunca aparece no início da palavra e só existe como minúscula (Maß, Fuß, Grüßen…). Quando a palavra é escrita toda em maiúscula, o “ß” tem obrigatoriamente que ser substituído por “SS” (MASS, FUSS, GRÜSSEN…).

Os ditongos “ei” e “ai”

Ei” é pronunciado sempre como “ai“, por exemplo, “Fleisch” (fláixe = carne), “Ei” (ai = ovo) ou “Wein” (Váin = vinho). Já “eu” se pronuncia como “ói“, por exemplo, “Beutel” (bóitel = saco), “treu” (trói = fiel).

Não emende sílabas e palavras

Enquanto que no português tendemos a emendar sílabas e palavras, em alemão elas são pronunciadas separadamente (com raras exceções). Então, tenha cuidado para não fazer isso também em alemão. “Coméquevai?” em alemão deve então ser claramente pronunciado como “Wie-geht-es-dir!“. Palavras escritas juntas devem igualmente ser pronunciadas separadamente. No caso de “Hausnummer” (número do prédio/da casa), por exemplo, se pronuncia claramente “Haus” (casa) e “Nummer” (número). O mesmo vale para “Hauseingang” (entrada da casa): “Haus” + “Eingang“.

Não oculte o objeto nem o sujeito

No português, costumamos ocultar muitas vezes o sujeito – “Fui para a escola” (aqui se oculta o “eu“) – ou o objeto “Você leu o livro?” -> “Sim, li!” (aqui se oculta “o livro” na resposta). Em alemão não se oculta nem um nem outro: “Ich ging zur Schule” (Eu fui para a escola); “Hast du das Buch gelesen” -> “Ja, ich habe es gelesen!” ou “Ja, ich habe das Buch gelesen“.

Pensando “ao contrário” – o emprego dos verbos

Em frases simples, a sintaxe do alemão é semelhante à do português, seguindo o esquema SUJEITO-VERBO-OBJETO. Por exemplo:

EU GOSTO DE VOCÊ!… -> ICH MAG DICH!
ou EU BEBO ÁGUA. -> ICH TRINKE WASSER.

Em frases com mais de um verbo, o posicionamento de elementos na frase alemã é diferente do português. No idioma alemão se pensa praticamente ao contrário, com a ordem dos elementos “invertida”. Enquanto que no português se perguntaria:

VOCÊ QUER APRENDER A FALAR ALEMÃO?

se formula a mesma frase em alemão da seguinte forma:

WOLLEN SIE DEUTSCH SPRECHEN LERNEN?
(=Quer você alemão falar aprender?)

Enquanto que no português vem primeiro o verbo ‘aprender’ (que é aquilo que se quer), no alemão ele vem no fim. O mesmo vale para a resposta:

JA, ICH WILL DEUTSCH SPRECHEN LERNEN.
(=Sim, eu quero alemão falar aprender), o que em português diríamos:

SIM, EU QUERO APRENDER A FALAR ALEMÃO.

A pergunta em alemão

Também aqui vale: pense “ao contrário”. Como o exemplo acima já mostra, na pergunta em alemão o verbo vem antes do sujeito. “Você quer?” vira então “Quer você?”. Alguns exemplos:

VOCÊ QUER COMER? = WILLST DU ESSEN?

ELA FALA ALEMÃO? = SPRICHT SIE DEUTSCH?

VOCÊ ESTÁ CANSADO? = BIST DU MÜDE?

Em alemão, não há vogais nem ditongos nasais

No português, temos vogais nasais, que são indicadas pelo uso do til (mão, pão, maçã, armação…), da letra “N” ou “M” depois da vogal (mandar, pampa, vingança…). Em alemão, não há vogais nem ditongos nasais, mesmo que acompanhadas de um “N” ou “M“.

É pela falta da vogal nasal que escutamos constantemente em alemão, por exemplo,”Sáu Paulo” ao invés de “São Paulo“.

“Brasiliana” não é mulher… – “ER” no final das palavras

Uma vez me encontrei com uma família que havia chegado do Brasil e escutei o filho reclamando dos alemães, pois ele achava que eles o estavam chamando de menina na escola. Não entendi e pedi que ele me explicasse e tive que rir quando ele disse: <<Eles dizem que eu sou um “Brasiliana”, mas eu não sou mulher. Portanto, sou “Brasiliano”!>>. Ri porque compreendi o mal-entendido: “er” no final de uma palavra é comumente pronunciado como um “a“. Mesmo que aqui haja diferenças regionais, você pode usar tranquilamente um “a” que qualquer alemão irá compreender. Por exemplo, se for para dizer “um homem inteligente” em alemão (“ein intelligenter Mann“), pode pronunciar o “er” como um “a“: “Ein intelligenta Mann“. O menino não teria se ofendido se já tivesse entendido isso e que “brasileira” em alemão não é “Brasiliana“, mas sim “Brasilianerin“.

No caso das palavras “er” (o pronome “ele”) ou “der” (o artigo “o”), por exemplo, não se pronuncia um “a“, mas um “éa” curto: “Er ist groß!” (Ele é grande!) = “Éa ist groß!”

Substantivos são sempre maiúsculos

Enquanto que no português os substantivos são normalmente escritos com letras minúsculas, com exceção de nomes próprios e início de frases, em alemão eles são sempre maiúsculos. “Der Mann” (o homem) ou “die Frau” (a mulher), “der Hund” (o cachorro), “der Bus” (o ônibus) são alguns exemplos.

Bom, vou encerrando por aqui para evitar um texto longo demais e uma quantidade muito grande de informações de uma única vez. Espero que as explicações acima lhe possam ser útil e ajudem em seu aprendizado do idioma alemão.

 

Última atualização deste post: 07/11/2017

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Imagem: nito/shutterstock

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Blogueiro brasileiro residente em Berlim – “Escrevo sem luvas porque tocar é importante”.