O relacionamento amoroso entre brasileiros e alemães  – Por Gustl Rosenkranz

Blogueiro brasileiro residente em Berlim

Já faz algum tempo que alguém me pediu para escrever sobre o relacionamento amoroso entre brasileiros e alemães. Não pude atender logo esse pedido, pois nunca é fácil escrever sobre relacionamentos de uma forma generalizada, já que cada ser humano é singular e o relacionamento de duas pessoas singulares só pode resultar em singularidade.

Assim, cada relacionamento é uma constelação única, que só existe uma vez. Ouso-me agora abordar o assunto, mas ciente de que o que escrevo não pode ter nenhuma pretensão de validade geral.

Escrevo com base em minha própria vivência, no que tenho observado na vida de outros casais teuto-brasileiros e em minha experiência de vários anos no aconselhamento de casais binacionais.

E é claro que minha abordagem será limitada, já que existem inúmeras formas de convivência e seria praticamente impossível conhecer todas elas. Mas escrevo, mesmo sabendo disso, na esperança de poder ajudar uma outra pessoa em sua situação atual.

Todo relacionamento é singular

Repito: todo relacionamento é singular. Singular e complexo. E isso já vale quando se trata de um relacionamento com um “vizinho”, com alguém que vive no mesmo lugar, numa realidade parecida com a sua.

O relacionamento amoroso é para mim uma das formas mais complexas de nos relacionarmos, já que essa relação vai bem mais além que uma interação entre dois indivíduos, vai bem além de nossos outros modelos de convivência.

Enquanto, por exemplo, vivemos nossas relações de trabalho, de amizade ou de lazer durante um número limitado de horas por dia, indo depois para casa, nos recolhendo, sem necessariamente termos mostrado quem realmente somos, nos deparamos em casa com o parceiro ou a parceira amorosa, que nos conhece intimamente, com quem dividimos o que temos de mais pessoal: nossa nudez, nossas manchas e pigmentos, nossas curvas ou “quadraduras”, nossas carências, nossas tristezas e alegrias, nossas limitações, nossos sonhos secretos, nossa esperança e, principalmente, nossos medos.

Então, quando duas pessoas se encontram, se apaixonam e resolvem viver uma relação amorosa, inicia-se uma fase que, por mais bonita e gratificante que seja, implica em muito esforço para conhecer e aceitar o outro com todos os seus hábitos, manias e defeitos, para fazer alguém feliz e se sentir feliz, para transformar a intimidade vivida em cumplicidade, ou seja, para construir uma vida a dois e mais ainda: para que essa vida a dois seja eterna (enquanto dure!).

Isso já tarefa difícil com alguém que vem do seu meio, que cresceu com a mesma cultura e talvez com a mesma mentalidade, que fala o mesmo idioma, que gosta das comidas que você também gosta e escuta as músicas que você também escuta.

Imagine então as dificuldades enfrentadas por duas pessoas que vêm de países ou mesmo de continentes totalmente diferentes, com outra cultura, outra mentalidade, outro idioma e outros gostos. Aqui você pode ter certeza de que esse relacionamento exigirá um esforço muito maior.

As culturas brasileira e alemã são compatíveis

Em minha opinião, as culturas brasileira e alemã são compatíveis.

Existem diferenças marcantes, claro, mas há muitos denominadores comuns: a colonização do Brasil por europeus fez com que nossa cultura tenha muitas características europeias, a cultura alemã tem uma origem cristã, a brasileira também, o estilo de vida de ambos os povos se assemelha em muitos pontos e, além disso, os alemães gostam muito do Brasil e os brasileiros da Alemanha.

Encontramos algo positivo até mesmo onde somos diferentes, já que parecemos nos complementar exatamente através dessas diferenças: enquanto brasileiros podem aprender dos alemães, por exemplo, uma maneira mais sóbria (que muitas vezes entendemos como seca) de ver a vida, uma melhor capacidade de organização e certas virtudes, como a pontualidade e uma postura mais consciente em relação ao papel de cada um na sociedade, os alemães podem aprender dos brasileiros uma maior espontaneidade, mais flexibilidade, uma forma mais leve de enfrentar os problemas do cotidiano.

Quando digo que esses povos são culturalmente compatíveis, não quero dizer que não existam problemas de relacionamento entre eles.

Esses problemas existem e vou tentar tratar de alguns deles a seguir, mas não são coisas tão agravantes como se vê em relacionamentos de pessoas de meios culturais totalmente diferentes, com menos pontos de intercessão dos que existem entre brasileiros e alemães.

E essa é uma boa notícia para um brasileiro ou brasileira que esteja iniciando um relacionamento com alguém da Alemanha ou vice-versa: as chances desse relacionamento dar certo, pelo menos no aspecto cultural, são muito favoráveis, mesmo que isso não signifique que não haverá conflitos.

As diferenças culturais: uma desculpa perigosa

Se você estiver num relacionamento com alguém de outro país, entenda que é muito importante você se ocupar com sua cultura, com a forma como se vê a vida no lugar de onde ele vem. E isso tem que ser recíproco, devendo o outro também ter o mesmo interesse por sua cultura.

Isso é importante para que ambos se entendam melhor, mas também para que possam distinguir quando um conflito tem sua origem em diferenças culturais ou quando se trata de um problema entre as duas pessoas, sem necessariamente ter a ver com a cultura de cada uma delas.

Entender a cultura do outro implica também em se livrar de clichês e preconceitos, de folclore e interpretações generalizadas e de ilusões e projeções, coisas que só contribuem para um maior desentendimento e uma distorção da realidade do casal.

Somente entendendo a cultura do outro é que você será capaz de se livrar de uma armadilha perigosa: a de tentar justificar os problemas enfrentados pelo casal sempre com as diferenças culturais.

A interpretação dos mesmos problemas seria outra numa relação entre brasileiros

Imagine só o que aconteceria se você, brasileiro ou brasileira, conhecesse alguém no Brasil, um brasileiro ou uma brasileira como você, e descobrisse nos primeiros encontros que essa pessoa é muito fria, distante, que nunca demonstra seus sentimentos.

Aqui você não começaria a procurar explicações para isso no meio cultural. Você simplesmente constataria isso e, a depender do quanto isso lhe incomodasse, você talvez até se afastasse da pessoa por saber que não quer essa “frieza” em seu relacionamento.

Pois bem, agora imagine a mesma situação, só que dessa vez com o parceiro ou parceira da Alemanha. Aqui podem ocorrer duas coisas:

  1. Você se ocupou com a cultura alemã, entendendo pelo menos um pouco como os alemães são e percebeu que os alemães podem até ser mais reservados que os brasileiros no que diz respeito a demonstrar emoções, mas não são frios.Você compreenderia então que, também na Alemanha, há gente de tudo quanto é tipo e que, como no Brasil e em qualquer lugar do mundo, aqui há pessoas frias, mas ficaria claro que isso não vale para todos os alemães.Você teria assim melhores condições para diferenciar se essa „frieza“ que lhe incomoda tem mesmo a ver com a cultura alemã ou se ela é uma característica, uma peculiaridade de seu parceiro ou parceira. Você teria mais liberdade para decidir, ainda cedo, se quer realmente um relacionamento com essa pessoa ou não.
  2. Você não procurou conhecer a cultura alemã, interpreta o problema de acordo com clichês/preconceitos, já acredita antecipadamente e até diz por aí que “todo alemão é frio”.Você, que se sente extremamente incomodado(a) com essa „frieza“, a relativiza, explicando-a de forma errônea, aceitando-a por ser um “aspecto cultural” e nem cogitando a possibilidade de que essa “frieza” que você sente no parceiro nada tenha a ver com o fato dele ser alemão, ignorando que tudo poderia ser diferente se o alemão ou a alemã em questão fosse outra pessoa, um alemão/uma alemã diferente, com outro caráter, com outra personalidade, com outra história de vida.Você ignora a possibilidade do problema que vocês têm ser um problema entre vocês e não entre as culturas de dois países.

Sinceramente, vejo muita gente escolhendo a segunda opção. Vejo é muita gente desculpando os “defeitos” do parceiro ou da parceira ou coisas que lhe desagradam no relacionamento com as diferenças culturais.

Não caia nessa armadilha!

É claro que essas diferenças culturais existem e não deveriam ser ignoradas. Não é isso que digo! Só digo que é essencial afinar os sentidos e o olhar crítico e ver as coisas com a devida diferenciação, não caindo na armadilha de achar que diferença cultural sempre explica tudo.

Recordo-me de uma conhecida brasileira que é casada com um alemão e sofre. Ela sofre porque o cara é um egoísta, insensível, que coloca suas necessidades acima de qualquer outra coisa e que, consequentemente, não a trata com o devido respeito, com o respeito que deveria existir em qualquer relacionamento.

Como ela gosta do marido e quer porque quer que o relacionamento dê certo, ela sempre o desculpa, dizendo a frase “é, alemão é assim mesmo!”.

Já tentei mostrar-lhe várias vezes que “alemão não tem que ser assim” e que ela se encontra bem dentro dessa armadilha, mas ela se recusa a compreender que o comportamento do marido não tem nada diretamente a ver com a cultura alemã, mas sim com sua pessoa, ela se nega a perceber que ele (o marido) simplesmente é assim como ele é, devido a seu caráter e sua personalidade, devido a sua história de vida.

Ouso-me até a supor que essa mesma mulher provavelmente não estaria com esse marido há muito tempo se ele fosse brasileiro como ela e não existisse mais essa sua desculpa padrão de que a culpa seria da diferença cultural.

É mais fácil culpar a cultura

Ninguém gosta de fracassar, em nenhum sentido, muito menos em um relacionamento amoroso, já que esse fracasso mexe muito com nossa autoestima.

Então, quando surgem problemas (ou mesmo quando o relacionamento acaba), buscamos a causa em alguém ou alguma coisa.

Normalmente tendemos a culpar o parceiro ou a parceira, por esse ou aquele defeito, por esse ou aquele comportamento. Raramente conseguimos ser sóbrios e ver as coisas como realmente são, o que é compreensível, já que estamos machucados, com o orgulho ferido e frustrados por causa do relacionamento que está caminhando com dificuldade ou mesmo que não deu certo.

Assim, buscamos um “culpado” e, num relacionamento binacional, nada é mais fácil que responsabilizar as diferenças culturais pelos problemas do casal.

Mas também nesses relacionamentos a coisa não é tão simples assim. Dificuldades em um relacionamento ou mesmo seu fracasso não tem normalmente só uma causa. São muitos os fatores que podem levar a isso, já começando no momento da escolha, da decisão de se aproximar do outro, nos motivos que nos levaram a escolher o parceiro ou a parceira e em nossas expectativas.

Conheço muitos relatos de brasileiros, principalmente (mas não somente!) mulheres, que reclamam do parceiro (ou ex-parceiro) alemão, de sua frieza, de seu egoísmo, de sua falta de respeito, de que seria sujo, de que seria avarento, disso e daquilo, de tudo. E culpam a cultura alemã, comentando que alemão seria assim ou assado, o que é bem mais fácil que reconhecer e admitir que escolheu um parceiro (ou parceira) frio, egoísta, desrespeitoso, sujo e avarento.

Por que há tanta gente reclamando?

Conversando com alguém que fazia questão de responsabilizar a cultura alemã pelas suas dificuldades no seu relacionamento com um alemão, escutei o argumento que se não fosse assim não haveria tantas mulheres reclamando por aí.

Bom, há realmente muita gente reclamando e conheço muitos relatos a esse respeito, também na internet. Mas também conheço muitas mulheres brasileiras em relacionamento com um alemão que estão satisfeitas, que estão felizes e que não reclamam da cultura alemã e dos alemães. E tenho a impressão de que esse segundo grupo é bem maior.

Dá então para dizer que o problema são os alemães e sua cultura? Penso que não.

Muitos homens alemães difíceis buscam uma mulher de fora

Gostaria de tocar em um ponto sensível, algo que provavelmente não agradará a alguns, mas que tenho observado e que acredito que contribui muito para os problemas enfrentados por muitas mulheres brasileiras em suas relações com alemães:

Há um certo tipo de homem alemão que viaja para o Brasil (ou para a Tailândia, para as Filipinas ou outros países) com um único objetivo: o de conhecer uma mulher, alguns buscando aventura sexual, outros buscando alguém para casar.

Muitos desses homens têm uma personalidade complicada

Sem generalizar, pois sempre cada caso é um caso, observo que muitos desses homens têm uma personalidade complicada, são pessoas difíceis, que buscam uma relação de fora por não terem chances reais com mulheres alemãs, já que elas não aceitam a forma como esses homens se comportam num relacionamento.

Quem duvida disso que digo sobre esses homens, que abra os ouvidos e escute as conversas deles, por exemplo, em voos da Condor para Salvador próximo ao carnaval (ou mesmo em outras épocas).

Não digo que esses homens sejam necessariamente pessoas de má índole, mas muitos são simplesmente pessoas difíceis de lidar.

Bom, agora imagine o seguinte: esses homens chegam no Brasil e partem para a “caça” e conseguem isso mais cedo ou mais tarde, já que (desculpem a franqueza!) o fato de serem alemães/europeus já desperta rapidamente o interesse de determinadas mulheres.

Há mulheres que então se envolvem com esses homens, sem que haja um idioma comum, o que dificulta muito a percepção de quem o homem realmente é.

Muitas vezes, o relacionamento é baseado em clichês e ilusões

Isso é agravado por certas associações feitas por essas mulheres, que acham, entre outras coisas, que o homem é automaticamente um bom partido por vir de fora, que é automaticamente bonito por ser loiro e talvez ter os olhos azuis ou verdes, que é rico por ser alemão e assim por diante.

Há um certo “deslumbre” pelo fato do cara ser alemão/europeu e isso leva no começo a ilusões, projeções e expectativas muito distantes da realidade. E aqui vejo claramente conflitos pré-programados.

As diferenças culturais entre brasileiros e alemães, entretanto, existem

Mesmo que as diferenças culturais não possam ser usadas como desculpa universal para os problemas em relacionamentos entre brasileiros e alemães, elas existem e não podem ser ignoradas.

A exteriorização de emoções

Uma das diferenças mais marcantes é, em minha opinião, a forma de exteriorização de emoções:

Enquanto o brasileiro é mais emocional e “transborda” seus sentimentos mais facilmente, o alemão nesse ponto é mais reservado, o que, todavia, não significa que ele seja frio. Ser frio significaria que o alemão não tem essas emoções, o que não é assim. Ele as tem e as mostra, mas de uma forma mais discreta, menos exposta.

Por exemplo, na amizade: enquanto o brasileiro é mais “atirado”, já abraçando e chamando de amigo alguém que ele acabou de conhecer, o alemão prefere dar tempo e deixar a coisa crescer devagar, mas, com a cristalização da amizade, ganha-se um bom amigo e o contato com ele provavelmente será bastante profundo.

O mesmo vale para o relacionamento amoroso: também aqui o alemão é mais reservado que o brasileiro, principalmente no início, mas, com o tempo e com o crescimento da confiança e da intimidade, isso muda, mesmo que não se deva esperar que ele um dia se comporte como um brasileiro.

Aqui as duas culturas podem se complementar

Essa diferença na forma de exteriorizar sentimentos é um bom exemplo do que escrevi acima sobre como as duas culturas podem se complementar: enquanto o alemão pode aprender do brasileiro a se abrir mais, a ser mais leve e menos racional em sua lida com o lado emocional da vida, o brasileiro pode aprender a ser mais cauteloso, mais seletivo e crítico em seus contatos e (novamente desculpem pela franqueza!) também ser também menos superficial.

O jeito direto dos alemães

Outra diferença marcante, que é algo que assusta muitos brasileiros, é o jeito direto dos alemães, que não dão voltas para dizer o que pensam e não “embalam suas palavras em papel de presente”.

Aqui vejo gente classificando isso como grosseria e, pior ainda, interpretando isso como falta de respeito pelo outro, algo com o que não concordo, pois, pelo contrário, ser sincero é um sinal muito maior de respeito do que ficar enrolando e dando voltas para dizer o que quer e achando que o outro tem a obrigação de ficar lendo entrelinhas.

Ao mesmo tempo, penso que um alemão que se envolve com alguém do Brasil também deveria desenvolver um pouco mais de sensibilidade para não chocar e assustar com sua forma tão direta: não precisa pegar o que diz e “embalar para presente”, mas nada custa colocar uma “florzinha” em cima 😉

Existem ainda muitas outras diferenças culturais, mas que não acho que sejam tão graves assim. O que não podemos fazer é interpretar clichês e preconceitos como diferença cultural e muito menos generalizar as experiências e impressões pessoais, transformando-as em coisas tipicamente alemãs (ou vice-versa, com o alemão fazendo o mesmo em relação à cultura brasileira).

Conhecendo o outro…

Num relacionamento binacional vale a mesma coisa que em qualquer relação amorosa: é preciso conhecer o outro!

Amar alguém (falo de amor e não de paixão!) significa aceitá-lo como é, o que implica em conhecê-lo para poder amá-lo e para isso se necessita de tempo.

O problema é que esse tempo nem sempre é respeitado, principalmente quando duas pessoas se apaixonam e vivem muito distantes uma da outra.

Muitos relacionamentos binacionais saltam etapas

Muitos relacionamentos binacionais saltam etapas. Enquanto um casal do mesmo lugar tende a esperar, a se conhecer melhor antes de dar algum passo importante como morar juntos ou casar, casais binacionais tentem a acelerar esse processo, o que é compreensível, pois o fazem devido à distância entre os dois países (a certo ponto, um dos dois muda para o país do outro e muitos terminam então morando logo juntos),. Isso é um fator que pode ser desfavorável para o relacionamento.

Normalmente, a única chance de ficarem juntos é a emigração de um dos dois, que larga então toda sua vida e termina se mudando para o país (e muitas vezes para a casa) do outro. Esses casais às vezes terminam até se casando bem rápido, o que também é compreensível, pois, não raramente, essa a única possibilidade do parceiro/a parceira que vem de fora poder levar uma vida normal no país que escolheram para viver.

Todos esses fatores externos, que podem levar a uma aceleração de passos como morar juntos ou mesmo casar, são legítimos e não são nenhum grande problema quando se tem consciência deles e quando não se perde de vista a necessidade de continuar conhecendo e descobrindo o outro aos poucos.

O início da vida conjunta: uma situação de desigualdade

Exceto se o brasileiro já viver algum tempo na Alemanha (ou o alemão no Brasil) e já tiver sua vida estruturada quando se inicia uma vida conjunta, o resultado de viver juntos é, no início, uma situação de desigualdade entre os parceiros, que pode ser um grande obstáculo para o relacionamento.

Para ilustrar isso, gostaria de pegar um exemplo de uma brasileira formada, bem empregada, trabalhando e tendo uma vida independente no Brasil. Essa mulher sai um dia com amigos para se divertir e conhece um alemão, se apaixona, ele volta para a Alemanha e o contato prossegue por telefone, e-mails, Skype…

Eles se visitam mutuamente nas férias e vivem por um tempo um relacionamento à distância, até que resolvem que querem ficar juntos e que então um dos dois precisaria mudar de país. Digamos então que eles resolvem que ela vem para a Alemanha e que eles querem tentar viver aqui.

Pois bem, ela larga sua vida, sua família, seus amigos, seu trabalho, sua independência no Brasil e vem para a Alemanha e não fala ou fala pouco alemão.

A dependência inicial do namorado/marido

O que acontece então é uma dependência inicial do namorado/marido, já que, sem saber o idioma e como as coisas aqui funcionam, ela fica primeiramente incapaz de caminhar com as próprias pernas.

O namorado/marido prossegue em sua vida normalmente, trabalhando, tem seus amigos, sua família e para ele a vida muda muito menos do que para a mulher brasileira que largou tudo para vir para cá. Ela se sentirá deslocada, sofrerá de saudade, talvez fique entediada pela falta de atividades e não terá ninguém, exceto o parceiro, para ampará-la e consolá-la.

Essa situação pode gerar muitos conflitos e é uma fase que pode ser extremamente difícil na vida do casal

Uma pessoa adulta, que antes se virava sozinha, se vê de repente numa relação de dependência, possivelmente se sentindo parcialmente como uma criança que tem que aprender um monte de coisas novamente, até mesmo a falar!

Para piorar a situação, a profissão que ela aprendeu provavelmente não será reconhecida facilmente aqui, exigindo que ela tenha que enfrentar a monstruosa burocracia alemã para resolver isso ou mesmo voltar a estudar ou, pior ainda, terminar trabalhando mais tarde com algo muito diferente do que aprendeu e gosta de fazer.

E o não reconhecimento de sua profissão aqui e a situação de dependência do parceiro alemão pode ter consequências graves na vida da pessoa, podendo mexer muito com sua autoestima.

A situação pode ser difícil também para o alemão

A situação pode ser difícil também para o alemão por se sentir responsável pela parceira, por perceber suas dificuldades e seu sofrimento inicial, por ter em casa alguém dependente dele.

Tudo isso pode abalar muito o relacionamento, com acusações mútuas, já que a parceira dependente pode terminar descarregando sua frustração no parceiro, enquanto esse pode se sentir sobrecarregado com o tamanho de sua responsabilidade na situação.

A coisa pode ainda ser ainda mais difícil se um dos dois ou ambos, por não conhecerem bem a realidade do outro, tiverem entrado no relacionamento com expectativas completamente ilusórias, longe da realidade.

Bom, o exemplo acima foi de uma mulher brasileira com um homem alemão. O contrário pode ser até bem pior, principalmente se o homem brasileiro tiver recebido uma educação patriarcal/machista, já que ele então sofreria muito por depender tanto da mulher no início.

Última atualização deste post: 14/06/2017

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O respeito e o diálogo são a chave para que dê certo

Este texto ficou longo, bem mais longo que esperava, mas não tem como abordar este tema de forma compacta.

Sei que toquei em muitos pontos negativos e talvez muito pouco nos positivos (há muitos!), mas minha preocupação prioritária foi com quem se encontra confrontado com os problemas de tal tipo de relacionamento.

De forma alguma quero desestimular ninguém, pelo contrário: reafirmo que relacionamentos amorosos entre brasileiros e alemães têm tudo para dar certo.

Importante para que funcione é o respeito mútuo, respeito pelo outro, pela sua cultura e, como em qualquer outro relacionamento, buscando sempre o diálogo, conversando e explicando ao outro como você se sente e o que ele poderia fazer para lhe ajudar e tentando enxergar o parceiro ou a parceira como realmente é e não o escondendo atrás de um rótulo, seja “brasileiro” ou “alemão”, já que ele ou ela é, em primeira linha, um ser humano como você, com as mesmas necessidades, com os mesmos sonhos e com a mesma vontade de viver a dois – caso contrário ele não estaria num relacionamento com você 😉


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