A Alemanha que nem sempre funciona – Por Manuela Marques Tchoe

Manuela Marques Tchoe é executiva de marketing em Munique e blogueira do “Baiana da Baviera¨, um blog de cultura & literatura. Sempre em busca de um olhar diferente sobre os aspectos cotidianos da Alemanha e do mundo.

Após publicar um artigo sobre a Alemanha no meu blog, um leitor comentou que meus textos mostram apenas o lado bom do país. Talvez o indivíduo até tenha um pouco de razão, afinal eu vejo a Alemanha por um ângulo muito positivo mesmo.

Resolvi, portanto, que era hora de mostrar um lado menos conhecido da Alemanha, aquele não tem nada a ver com a conclamada eficiência germânica ou com a riqueza de um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Eu me lembro quando ainda morava no Brasil, de como era fácil fantasiar sobre um lugar onde os estereótipos prometem beleza, riqueza, igualdade social, eficiência, humanismo, todas as qualidades empacotadas no paraíso que a Alemanha (e outros países de primeiro mundo) promete.

A verdade é que o buraco é muito mais embaixo: quando nos deparamos com essa dura realidade, é difícil acreditar que realmente existem problemas profundos e que nem sempre há disposição política ou social para resolvê-los.

Divido com vocês uma coletânea de questões problemáticas na Alemanha, baseada em notícias dos últimos tempos e/ou na minha experiência de doze anos vivendo por aqui (principalmente em Munique).

Serviços públicos para famílias aos poucos deterioram-se

Na Alemanha há muita burocracia
Na Alemanha há muita burocracia

Logo quando cheguei na Alemanha, me maravilhei com a eficiência dos serviços ao cidadão. É verdade que há burocracia, mas na maioria dos casos é uma burocracia que funciona.

Entretanto, venho notando que aos poucos a máquina pública está pifando, e isso não tem nada a ver com minha experiência recente de comparecer à repartição quatro vezes para renovar um passaporte porque o sistema estava fora do ar (acontece, né?), assim como não considero as longas esperas em hospitais em fins de semana porque havia apenas um pediatra de plantão. A verdade é que nem tudo é eficiente como imaginamos ou queremos – e ponto.

É inegável que principalmente o sistema de creches e jardins de infância está entrando em colapso: a demanda por profissionais para cuidar dos pequenos é muito maior do que a oferta e os que estão no mercado estão inconformados com os baixos salários.

Na minha experiência pessoal, no ano passado, fomos visitar vários kindergartens em Munique, e muitos diziam que estavam com falta de pessoal e que inclusive reduziriam as vagas; isso para uma cidade que já carece de lugares para acomodar tantas crianças. Em 2016, todas as creches e jardins de infância públicos entraram em greve por mais de um mês. Com certeza uma luta justa, mas o que acontece com os pais e mães que dependem desse sistema para trabalhar?

Fora isso, algumas amigas que estão de licença maternidade e voltarão a trabalhar em breve não conseguem lugar em creche pública ou privada porque os serviços da cidade não mais comportam o aumento populacional. A alternativa é gastar mundos e fundos com babá, mas, como muitos sabem, serviços são extremamente caros na Alemanha, e, portanto, gerenciar o orçamento doméstico está ficando cada vez mais difícil.´

Além disso, vi outro dia nas notícias que uma maternidade em Erding, uma cidade há aproximadamente 40 km de Munique, anunciou que não estavam mais fazendo partos normais, pois não havia doulas disponíveis, apenas médicos-cirurgiões. Dá para acreditar?

Sistema escolar

Imagine que na tenra idade de 10 anos as notas de seu filho decidirão se ele poderá um dia frequentar a universidade ou não. No geral, essa é a consequência de como o sistema escolar alemão funciona.

Basicamente falando, esse sistema é dividido em três opções escolares:

– Hauptschule: a escola ¨básica¨, onde as crianças estudam até os quinze anos

– Realschule: a escola que prepara crianças para faculdades ¨técnicas¨ e com foco mais prático

– Gymnasium: a escola que exige preparo e muito estudo como preparação para a universidade.

Os defensores desse sistema dizem que essa separação faz com que a educação não seja nivelada por baixo e que o currículo escolar esteja adaptado às habilidades das crianças. Até aí, concordo que nem toda criança terá o perfil de ir para a universidade e que ter uma profissão que não seja vinculada à universidade não é considerado menos importante (mas existe sim a questão do status).

As desvantagens desse sistema, na minha opinião, não compensam as vantagens: existe uma segregação invisível que faz os mais pobres e/ou estrangeiros receberem apenas a escolaridade mínima e, por consequência, trabalharem nos empregos com menos renda. Tão assustador quanto é o nível de estresse em crianças entre 9 e 10 anos:  a pressão de professores e pais para conseguir notas que os levem para o Gymnasium é fenomenal, criando gerações de workaholics. Me pergunto: para que tanto estresse? Para que essa imposição de decidir tão cedo que caminho que seguir?

Além disso, apesar de existir mobilidade entre os diferentes sistemas, não é uma transição fácil, e portanto tantos pais pressionam seus filhos para que eles sejam aceitos no Gymnasium de qualquer maneira. O estresse e a obsessão por desempenho aqui começa muito cedo.

Kindergarten-HarzIV Alemanha

Refugiados: percepção do medo levando à xenofobia

 A questão dos refugiados é um assunto controverso. No início a maioria da população, educada para ser politicamente correta, apoiou a recepção de milhões de refugiados de guerra. Com as dificuldades encontradas para integrá-los e com alguns escândalos como o assédio de Colônia, a opinião pública se tornou mais feroz. Muitos começam a culpar os refugiados (e/ou muçulmanos) por tudo, do colapso dos serviços públicos até o aumento dos aluguéis. É claro que existe um impacto, afinal muitos deles vieram para ficar, e integrar pessoas com uma cultura tão diferente não é café pequeno.

Aos poucos, essa resistência, que em certos aspectos é normal (afinal, quem gosta de pagar mais aluguel ou não encontrar creche para seu filho?), mas, quando a coisa começa a apertar, muitos começam a ter uma atitude xenófoba – e não só direcionada aos muçulmanos, mas também a negros ou outras pessoas que obviamente não são alemãs. Eu, pessoalmente, não noto diferença, mas isso porque eu sou branca, então eu não sou o alvo comum. Convivendo com estrangeiros, ouço com mais frequência situações de racismo e preconceito, de palavras agressivas trocadas. E ouço também brasileiros que vivem na Alemanha reclamando de outras nacionalidades como se eles fossem os nativos (engraçado isso, não?).

Acredito que as consequências dessa imigração em massa ainda serão vistas nos próximos anos, mas espero que os alemães tenham aprendido as lições da 2ª guerra, assim como espero que essas pessoas se sintam integradas na cultura alemã.

Sendo politicamente corretos ou não, sejamos pelo menos sinceros que a entrada de tanta gente criará mudanças e desconfortos em diferentes níveis, da cultura e idioma até os serviços públicos, empregos e desigualdade social. O que não é aceitável é, entretanto, o preconceito e o racismo que podem derivar disso.

Falta de investimento em infraestrutura

Apesar do milagre econômico alemão dos últimos tempos – como dito acima, com uma das menores taxas de desemprego já vistas e com um superávit orçamentário de EUR 23.7 bilhões (The Economist)  – o país tem uma das menores taxas de investimento em infraestrutura dos países desenvolvidos.

De acordo com a CNBC, são pontes caindo aos pedaços e gerando trânsito pesado em rodovias, é o Deutsche Bahn que só recentemente começou a investir para reduzir os atrasos dos trens (1 em 4 trens de longa distância persistem em atrasos). O aeroporto de Brandenburgo em Berlim é talvez um dos ícones dessa recente ineficiência, dez anos de construção e a data para o começo de suas operações continua um mistério.

Uma das explicações para tamanha reticência em investir é a obsessão alemã de manter o orçamento em ordem; gastar, mesmo que seja em prol do futuro, é visto com ceticismo. Entretanto, muitos já vêem que não há forma do país continuar com um bom desempenho econômico se não houver investimento.

Pobreza também existe na Alemanha – e muito

Morador de rua em Hamburgo

Para nós, a pobreza é vista de uma forma diferente: geralmente sem-tetos, pessoas que não tem o que comer. Na Alemanha, o conceito de pobreza não é tão radical como no Brasil, não existe essa miséria omnipresente na forma de favelas, mas existem porções da população que foram esquecidas pelo crescimento econômico alemão.

No começo de 2017, foi anunciado que 15.7% da população vive abaixo a linha da pobreza, o valor mais alto desde a reunificação alemã em 1990.  E isso com uma taxa de desemprego baixíssima de 4.9%.

Os mais vulneráveis são os pais ou mães solteiros, idosos e estrangeiros, principalmente em Berlim e na região da Renânia-Westfália. Nos grandes centros como Munique, onde o custo de vida é caríssimo, está ficando cada vez mais difícil gerenciar o orçamento também para famílias. Os custos – principalmente de aluguel – continuam aumentando, enquanto os salários não aumentam na mesma proporção.

A consequência de longo prazo é, se nada mudar, mais habitantes com dificuldades para pagar as contas. Já existem muitas pontes sendo habitadas por pessoas que, apesar de terem um emprego, não conseguem pagar por um lugar para viver.

 Ou seja…

Viver na Alemanha não é o mar de rosas que muitos pensam. Existem problemas sistêmicos – recentes ou enraizados – que não são fáceis de resolver. No geral, ainda considero a Alemanha um ótimo país para se viver, existe ainda uma qualidade de vida excelente, mas dificuldades existem, como em qualquer lugar.

Agora, se essas dificuldades são consideradas problemas de primeiro mundo ou não, daí já são outros quinhentos…

 

Visite o blog da autora:

Curta Baiana da Baviera no Facebook

 

Leia também:

A desigualdade social e o aumento da pobreza na Alemanha

Os alemães e sua relação com o consumo – Uma nova forma de olhar as coisas

Cores e sabores do verão na Alemanha

Quero viajar para a Alemanha como turista. O que preciso saber?

Última atualização deste post: 15/08/2017

Curta Alemanha para Brasileiros no Facebook e acompanhe as publicações do site

 
 

Gostou? Compartilhe! Obrigado 🙂