Vi um post sobre o Mercado de Frankfurt, onde se compra verduras, legumes e frutas. Uma brasileira comentou que era uma maravilha comprar essas coisas na Alemanha, pois tudo seria sem agrotóxicos.

É exatamente sobre isso que quero escrever: sobre a mania que certas pessoas têm de achar que na Alemanha seria tudo perfeito, o que não é verdade.

Antes que me xinguem, sugerindo que eu estaria “falando mal da Alemanha”, deixo claro que adoro esse país, no qual já vivo há três décadas. Meu objetivo não é falar mal, pois, como dito, adoro a Alemanha. Só acho que não faz qualquer sentido ficar criando mitos e negando a realidade que, como em qualquer lugar, sempre tem pelo menos dois lados.

Na Alemanha também se usa agrotóxicos!

Voltando à história dos agrotóxicos: de onde a mulher tirou a ideia de que na Alemanha verduras, legumes e frutas seriam livres de química? Mesmo que o uso de pesticidas, adubos químicos e afins seja mais reduzido que em muitos outros países, isso não significa que aqui não se usa agrotóxicos.

A agricultura industrializada na Alemanha é muito criticada exatamente pelo uso extremo de produtos químicos, que não ameaçam somente a saúde do consumidor, mas também o meio ambiente. Em muitas regiões, há uma grande preocupação com uma possível contaminação dos lençóis freáticos por esses produtos.

Quem quer se alimentar de forma mais segura e sem agrotóxicos na Alemanha tem que recorrer a produtos orgânicos (Bio) que são bem mais caros. Quem compra produtos comuns no supermercado ou na feira, corre o risco de consumir química sim!

Greenpeace examinou as maçãs alemãs: 90% estavam contaminadas com pesticida

Teste de Greenpeach: 90% das maçãs alemãs com pesticida
Teste de Greenpeach: 90% das maçãs alemães contaminadas com pesticida

Corrupção e panes na Alemanha

Vi outro post sobre a corrupção no Brasil e li vários comentários de brasileiros dizendo que isso não haveria na Alemanha. Errado: corrupção também há por aqui e não é pouca, mesmo que de forma menos extrema que no Brasil ou em outros países!

Também na Alemanha há incompetência, planejamento errado de obras públicas e até mesmo desvios de dinheiro. Também aqui ocorrem panes, escândalos e falcatruas.

O aeroporto de Berlim

O aeroporto da capital: BER não será inaugurado antes de 2019
O aeroporto da capital: BER não será inaugurado antes de 2019 – SPIEGEL ONLINE – 31.08.2017

Um bom exemplo é a eterna obra do aeroporto internacional Berlim-Brandemburgo, que já virou motivo de piada no país inteiro e se tornou um símbolo de desperdício de dinheiro público e incompetência.

A obra começou em 2006 e deveria ficar pronta em 2011 e custar 2,4 bilhões de euros, mas não está pronta até hoje e os custos estão estimados em 5,4 bilhões de euros, com tendência a aumentar, já que ninguém sabe direito quando o aeroporto será inaugurado. A previsão atual é no ano de 2019, mas com muita insegurança. O absurdo é tão grande que a Lufthansa já está exigindo uma modernização do terminal, que já está antiquado antes mesmo de ter sido inaugurado.

Até hoje, o aeroporto não trouxe qualquer benefício para a população de Berlim, mas causa custos diários de 1,3 milhões de euros.

Há suspeita de rolou corrupção na história, o Ministério Público está investigando e essa pane já custou o cargo do ex-prefeito de Berlim, Klaus Wowereit (SPD), que teve que renunciar após grande pressão da opinião pública (aqui há realmente uma grande diferença em relação ao Brasil: políticos envolvidos em escândalos normalmente saem do cargo que ocupam!).

Aeroporto de Berlim
O de Berlim não sobe, taz.de – 8. 5. 2012

O escândalo dos motores a diesel

Outro exemplo de que aqui nem tudo caminha como deveria foi a manipulação de software em veículos a diesel pela Volkswagen e por quase todos fabricantes de automóveis na Alemanha.

Essa história é uma vergonha para o país. Logo o setor automobilístico, a principal indústria alemã, que produzia carros e as pessoas compravam no mundo todo acreditando que estavam comprando uma tecnologia moderna, mas sendo na verdade enroladas com um truque no software.

Ao invés de construírem motores diesel de uma maneira que respeitassem os limites de poluentes impostos por lei, a indústria simplesmente usou de um truque de manipulação do software dos veículos que simula valores de acordo com os limites legais na inspeção do veículo, mascarando assim o alto nível de emissão de óxido de nitrogênio (NOx).

O trambique foi feito com sistema, envolvendo praticamente todo o setor automobilístico alemão e também o político, já que se observa uma passividade dos governantes em relação às falcatruas praticadas por essas empresas.

Envolvimento do setor político alemão com a indústria automobilística

Existe muita crítica contra o envolvimento do setor político alemão com a indústria automobilística, um envolvimento já antigo e que já pôde ser observado nos governos anteriores. Esse envolvimento fica evidente através da veemência com a qual o governo alemão defende os interesses da indústria automobilística alemã junto à da União Europeia (impedindo regras mais severas contra poluentes) e de políticos que, depois de seu mandato público, passam a trabalhar para o setor, como o atual presidente da Federação Alemã da Indústria Automobilística, Matthias Wissmann, que foi Ministro dos Transportes entre 1993 e 1998.

A evidência desse envolvimento fica clara também na forma como o governo alemão tem reagido ao escândalo, se posicionando de modo favorável para a indústria e deixando de defender os interesses dos consumidores e do meio ambiente. A reação mínima atual do governo só ocorreu após a justiça ter ameaçado proibir a circulação de veículos a diesel em cidades afetadas pelo alto nível de poluição.

Enquanto a Volkswagen está sendo obrigada a pagar bilhões de euros de indenização para consumidores nos Estados Unidos, quem comprou um carro diesel na Alemanha e foi enrolado fica praticamente a ver navios.

Ainda inestimáveis são os danos causados à imagem da indústria alemã como um todo e à sua fama de desenvolver e fabricar produtos de qualidade.

A Alemanha é um lugar maravilhoso, mas não é um paraíso!

Stuttgart 21

Stuttgart 21 é um projeto de reestruturação do transporte ferroviário na capital de Baden-Württemberg, cuja obra principal é a construção de uma estação central subterrânea em Stuttgart.

É um projeto da Deutsche Bahn (a companhia ferroviária alemã), financiado por ela e por verbas dos governos federal e estadual, da Verband Region Stuttgart, da Prefeitura de Stuttgart, da Flughafen Stuttgart GmbH e da União Europeia.

Em 1995, os custos do projeto foram estimados em 2,5 bilhões de euros. No início das obras em 2010, a estimativa de custos já havia sido corrigida para 4 bilhões de euros. Atualmente se estima custos de 6,3 bilhões de euro, mas, segundo o Tribunal de Contas da União, podem chegar a 10 bilhões de euros. Não há clareza sobre o financiamento desses custos adicionais.

Esse projeto é muito criticado, há grupos de cidadãos que lutam contra ele, mas o protesto popular tem sido ignorado pela companhia de trem e pelo poder público. Falta transparência sobre o andamento das obras e o financiamento.

O exército alemão e o fuzil que atira torto

Mais um exemplo que muita coisa aqui não anda certa são os negócios do exército alemão com a indústria de armas.

Durante muito tempo, por exemplo, o exército alemão usou o fuzil automático G36 como arma padrão para seus soldados. Somente 20 anos depois é que se descobriu que a arma, quando esquentava, perdia a precisão e os soldados alemães davam tiros tortos. O fabricante do fuzil diz que nada tem a ver com isso e provavelmente jamais será responsabilizado pelo erro em seu produto, já que essa tem sido a prática do governo federal: cobrir erros dessa indústria, deixando o prejuízo para o contribuinte, ao invés de responsabilizar o fabricante e exigir indenização.

Fuzil G36 Alemanha
Problemas com o fuzil G36: “Adequado para o uso somente com restrições”, SPIEGEL ONLINE, 18.04.2015

Olhem que esses são apenas alguns exemplos de inúmeras coisas que andam erradas no país.

A Alemanha é um lugar maravilhoso, mas não é um paraíso! Aqui também há problemas. E muitos!

Repito: minha intenção é a de corrigir essa imagem desviada de algumas pessoas, que acham que aqui tudo seria melhor, que tudo seria perfeito. De fato, a Alemanha é um país bom para viver e muita coisa realmente funciona melhor, se comparada com outros países, mas também há problemas, coisas que não andam como deveriam andar e aqui também há panes escândalos e falcatruas, já que, afinal de contas, alemão também é gente e gente erra em qualquer lugar.

Leia também:

A honestidade do alemão

Uma característica muito típica do alemão é uma certa Geradlinigkeit, um “andar em linha reta”, que faz parte de sua mentalidade.

 

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Última atualização deste post: 16/11/2017

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