Manuela Marques Tchoe é executiva de marketing em Munique e blogueira do “Baiana da Baviera¨, um blog de cultura & literatura. Sempre em busca de um olhar diferente sobre os aspectos cotidianos da Alemanha e do mundo.
Tübingen, em Baden-Württemberg, prova que não precisa ser cidade grande para estar entre as áreas mais prósperas da Alemanha.
Tübingen, em Baden-Württemberg, prova que não precisa ser cidade grande para estar entre as áreas mais prósperas da Alemanha.

Quando Helmut Kohl foi enterrado em 1º de julho deste ano, os alemães lembravam-se do legado do homem que liderou o país entre 1982 e 1998 com grande admiração: as feridas da divisão leste e oeste estão bem cicatrizadas, uma divisão que pertence ao passado. Ao olhar para a reunificação da Alemanha, celebrada a cada 3 de outubro, os alemães olham para uma nova divisão: norte e sul.

De acordo com a publicação The Economist, a divisão econômica entre o norte e o sul germânico está cada vez mais pronunciada. Se fôssemos separar o norte do sul, poderíamos utilizar o que os linguistas chamam de a Linha de Uerdingen, que separa os dialetos ¨alto¨ e ¨baixo¨ do alemão, e logo veríamos que tal separação seria quase igual: cada metade do país teria aproximadamente a mesma população, cada uma teria cinco das dez maiores cidades, assim como proporções similares de renda. Entretanto, a Alemanha do sul, que consiste das províncias de Saarland, Renânia-Palatinado, Hesse, Baden-Württemberg e Baviera, além da Turíngia e Saxônia, têm uma economia mais forte.

A Linha de Uerdingen, que divide a Alemanha de forma linguística, também serve como modelo para a nova divisão econômica do país.
A Linha de Uerdingen, que divide a Alemanha de forma linguística, também serve como modelo para a nova divisão econômica do país.

Isso porque os alemães do sul possuem algumas vantagens: as escolas são melhores, empregos estão mais disponíveis, eles ganham mais e vivem uma vida mais longa que seus conterrâneos do norte. Os governos do sul não ficam atrás. Com orçamentos fortes e finanças mais saudáveis, eles tendem a investir mais, em certas situações até cinco vezes mais que os vizinhos do norte. Um estudo recente do Instituto Alemão para Pesquisa Econômica (DIW), taxas de criminalidade no sul são comparativamente mais baixas. Para deixar os nortistas de cabelo em pé, o sul também prospera no futebol, com o melhor time baseado em Munique, o Bayern München.

É claro que existem exceções, como algumas regiões de mineração de Saarland e vilarejos vazios da Saxônia, que não fazem jus ao sucesso sulista. Da mesma forma, cidades high-tech no norte merecem destaque, como Hamburgo e Düsseldorf, que estão entre as mais ricas da Europa. Mas grande disparidade pode ser explicada pelas dificuldades encontradas pela província Renânia do Norte-Vestefália, que compõe quase metade da população alemã do norte, assim como o sucesso está largamente concentrado na Baviera e em Baden-Wurttemberg.

Hoje, a Baviera é o estado federal com a menor taxa de desemprego, impressionantemente de três por cento, sendo o outro extremo Bremen, no extremo norte, com mais de dez por cento. Isso nem sempre foi o caso.

Alemanha-norte-sul
*em 16 províncias | 1= melhor; 16= pior

Tão pronunciada é essa nova tendência que em alguns mapas de estatísticas é mais fácil ver a Linha de Uerdingen do que a antiga fronteira ocidental-oriental. A diferença na taxa de desemprego entre o norte e o sul será em breve maior do que entre leste e oeste, que também apresenta certa disparidade em expectativa de vida, principalmente entre mulheres.

Mas nem sempre foi assim.

O sucesso ao modo bávaro

Durante grande parte do século XX, foi o norte o grande combustível germânico, com foco nas indústrias de carvão, aço e navegação. Até 1960, a Baviera era a área mais pobre da Alemanha Ocidental, com recursos naturais escassos e, ainda por cima, com a tarefa de criar empregos para os milhões de alemães que fugiram da Europa Central desde 1945, acomodando-se nas áreas rurais da provícia.

Desde então, governos passaram a diminuir a burocracia e a oferecer incentivos para investimento não só para as cidades grandes mas também para produção de pequena escala em cidades menores e vilarejos. Tal política foi essencial em lugares onde a tradição econômica familiar impera há séculos, ou seja, pequenas e médias empresas familiares começaram a prosperar.

Firmas especializadas do sul, servindo gigantes como a Daimler e Siemens, estavam melhores preparadas para o declínio da indústria pesada, que atingiu principalmente o norte – e a Renânia do Norte-Vestefália. Assim como na Baviera, outras províncias combinaram habilidade e sorte para prosperar: mesmo com certas tradições industriais da época comunista, como tecnologia óptica em Jena e aviação em Dresden, Saxônia e Turíngia despontaram com sucesso na Alemanha reunificada.

Munique-prefeitura
Munique, cidade que comporta corporações de peso como Siemens e BMW assim como empresas pequenas e start-ups.

Há décadas que o foco em pesquisa e ciência tem criado condições propícias para o crescimento econômico dessas duas províncias do sul. A despesa combinada da Baviera e Baden-Württemberg para pesquisa e desenvolvimento é maior que a de todos os estados do norte. E é justamente isso que tanto atrai não só alemães de outras províncias como muitos estrangeiros, dando a essa região um crescimento populacional significativo.

De acordo com o Demographic Risk Atlas, um estudo de tendências populacionais, sugere que a nova divisão norte-sul da Alemanha pode se tornar maior que a disparidade regional da Itália. A DIW nota que tal disparidade pode ser até inconstitucional, visto que a consituição alemã garante oportunidades iguais para todos os cidadãos. No entanto, com a estrutura federal que limita a atuação do governo central em certas questões, como a educação, e sem as circunstâncias únicas da reunificação, essa garantia será cada vez mais difícil de cumprir.

Crédito da imagem “Linha de Uerdingen”: Slomox via Wikimedia Commons

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Última atualização deste post: 29/09/2017

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