Autoestima do expatriado – A visão de si e seus pontos cegos
Por Raquel Sá – Psicoterapeuta e Coach, Especialista em brasileiros expatriados

A autoestima está relacionada a forma como a pessoa se vê. É como a pessoa se auto avalia e julga a si mesma. A autoestima tem características mais estáveis que está relacionada a auto percepção, e suas crenças sobre si mesmo. Como por exemplo sou capaz ou incapaz, sou digno ou indigno de amor, etc.

Porém, as circunstâncias podem afetar a autoestima. Situações de frustração, por exemplo, tendem a abalar autoestima e deixar com julgamentos mais rígidos sobre si. Ao contrário comportamentos assertivos podem elevar a autoestima, promovendo julgamentos mais complacentes consigo e auto percepção positivas.

Quer saber como? Então continue lendo para entender melhor sobre:

A autoestima do expatriado

Dado essa pequena introdução, vamos verificar os fatores circunstanciais do expatriado que podem interferir na sua autoestima. Os fatores são múltiplos, mas vamos nos ater aos principais. Então continue lendo para entender como os seguintes pontos podem interferir na sua autoestima. São eles:

Comunicação

Comunicação

A comunicação na língua estrangeira é um processo difícil e por vezes doloroso. Isso porque além da dificuldade típica da expressão em outra língua, ela acompanha sentimentos importantes que interferem diretamente na nossa autoestima.

Isso ocorre porque nosso cérebro faz um esforço muito grande para processar uma língua diferente da nossa língua natal. A medida que vamos nos ambientando, estando mais imerso a língua esse esforço tende a diminuir e o processo passa a ser mais confortável. Mas ainda há algumas implicações emocionais. Vamos dar alguns exemplos:

1 – Velocidade da comunicação

Não conseguimos processar a língua estrangeira na mesma velocidade que nossa língua natal. Isso implica em uma sensação de mal-estar e muitas vezes agonia. Você quer se comunicar, mas não consegue. Sente-se travado. Isso gera frustração e irritação. E sentimentos de incompetência são ativados. Isso está intimamente ligado a autoestima. Lembram que autoestima é a percepção de si? Se você se sente incapaz, você se julga incapaz, se percebe incapaz.

2 – Vocabulário

Até conseguirmos atingir um vocabulário vasto e diversificado leva-se tempo. Durante muito tempo nos comunicamos com um vocabulário mais elementar. Isso gera um desconforto enorme. Pois na língua natal é possível ter um nível de comunicação mais sofisticado. Ao comparar com a língua nativa tem-se a sensação de pouco conhecimento dos assuntos abordados. Quando na verdade trata-se de não dominar o vocabulário. Isso é agravado em conversas com nativos, pois estes muitas vezes julgam que a pessoa que está se expressando na segunda língua não conhece o assunto abordado, quando na verdade ela está apenas com dificuldades de se expressar na língua estrangeira. Isso gera sentimentos de inferioridade e mais uma vez incapacidade. A pessoa pode se sentir burra, e sentir-se julgada como tal por não conseguir expressar sua opinião em assuntos mais complexos como política, economia, artes, filosofia, conhecimentos gerais, entre outros. A dificuldade não está por ignorar esses assuntos, mas em não conseguir expressar esses assuntos na língua estrangeira. Isso na maioria das vezes fica confuso na mente das pessoas. E o que fica é apenas a sensação de desconforto e mal-estar.

3 – Dificuldade de se fazer entender

A dificuldade de se fazer entender na língua estrangeira está intimamente ligado aos fatores a cima relacionados. A isso soma-se as questões culturais. Diferenças de hábitos, comportamentos e crenças gera muito mal-entendido na comunicação. E uma sensação de incompreensão aparece. Isso alimenta sentimentos de solidão, não aceitação e claro incapacidade.

Trabalhos aquém de suas habilidades formais

É comum a muitos brasileiros que vão morar fora trabalhar, pelo menos no início, em trabalhos que não estavam acostumados a trabalhar no Brasil. Muitos têm uma graduação no Brasil, e ao morar fora experimentam trabalhos diferentes de sua área de formação que não exigem os conhecimentos técnicos específicos aprendidos em sua graduação. Em geral são trabalhos que exigem menos habilidades intelectuais e mais esforço físico. Esse tipo de atividade costuma gerar mal-estar ao longo prazo. Não por ser um demérito ao algo de menor valor. O problema é que se você estudou e se preparou durante 4 ou 5 anos em uma universidade, é natural que você queira exercer aquela profissão. Foi com ela que você sonhou, é nela que você imaginou passando os seus dias e construindo uma carreira. E não conseguir executa-la implica em enterrar um sonho. Um sonho que você esteve prestes a viver, mas que não viveu. Ou pelo menos não da forma que imaginou.

A medida que o tempo vai passando e a pessoa não consegue mudar de atividade, ela começa a se sentir angustiada. Sente que todo seu conhecimento técnico e seus esforços em se graduar foram em vão. Que suas noites em claro estudando e suas horas de estágio não lhe serviram para nada. Sente-se frustrado e incapaz de mudar a realidade que o cerca. Como se estivesse fadado a viver daquela forma para o resto de suas vidas. Sem conseguir vislumbrar outras possibilidades. Mais uma vez crenças de incapacidade são ativadas e o sentimento de inferioridade aumenta.

Comida

emigrante e comida

Pode parecer algo sem importância, mas a comida tem um fator muito importante na autoestima. Você deve estar se perguntando: Como assim? O que a comida tem a ver com autoestima?

A comida é muito mais que um alimento para te nutrir. Ela faz parte de sua cultura e permeia todas as relações sociais. Eventos sociais são em geral realizados com alguma comida e bebida. Churrasco, festas, restaurantes e barzinhos. Tudo tem uma bebida e uma comida.

Quando moramos fora muitos alimentos típicas brasileiras são difíceis de encontrar. O tempero e a forma de preparo são muitas vezes diferentes. Os hábitos alimentares também são diferentes. Enquanto nós brasileiros tomamos café da manhã mais leve e temos o almoço e o jantar como refeições principais, em muitos países as refeições principais são outras. Os horários também são diferentes. Em muitos países o café da manhã é a refeição principal, e o almoço uma refeição rápida. Todas essas diferenças mexem com o metabolismo e com o bem-estar geral. Além disso, pode gerar sentimentos de incompreensão, não pertencimento e solidão. Ativando crenças de não aceitação e sensações de que não é bem quisto. Olha a autoestima abalada aí.

Clima

expatriado e clima

O clima é um ponto crítico para muitas pessoas. Algumas pessoas têm mais sensibilidade as variações climáticas que outras. Por exemplo, tem pessoas que se sentem mais tristes e mais desanimadas com dias cinzentos e chuvosos. Outras são mais sensíveis ao frio e tem dificuldades a se adaptar a temperaturas muito baixas. Outras se sentem deprimidas com longas horas do dia sem a luz do sol.

Nós brasileiros estamos acostumados com temperaturas mais elevadas, com pouca variação entre as estações do ano. Além disso, temos sol o ano inteiro, dias com 12h de luz solar praticamente o ano todo. Nossos dias não sofrem grandes variações da luz solar ao longo do ano.

Em muitos países as variações climáticas são bem mais extremas, e a luz solar varia para mais ou menos horas durante o dia, de acordo com a estação do ano. Tudo isso pode afetar o humor. Pessoas que tem maior sensibilidade as mudanças climáticas tendem a ter sua autoestima afetadas. Faça um exercício de auto-observação, e veja até que ponto o clima pode estar influenciando o seu estado de humor.

Diferenças Culturais

Diferenças Culturais

Aqui está outro ponto chave. As diferenças culturais são importantes. Nos faz abrir a mente, ver a vida sob outras perspectivas. Nos faz confrontar nossas crenças, rever nossos (pre)conceitos e expandir nossa percepção de mundo. Tudo isso é muito positivo e nos faz crescer enquanto seres humanos. Porém tem alguns pontos de nossa cultura que não abrimos mão. E tem alguns aspectos de outras culturas que julgamos ser ruim e que não estamos dispostos a absorver. Como tudo na vida existe seu lado positivo e negativo. Assim a nossa cultura e as demais culturas também possuem seu lado positivo e seu lado negativo.

No entanto essa adaptação nem sempre é tão simples. Precisamos nos adaptar à nova realidade. E essa nova realidade as vezes se choca com nossos hábitos que muitas vezes são difíceis para nós abrir mão. Vamos dar um exemplo para isso ficar mais claro. Em um lugar onde não haja água em abundância é conveniente reduzirmos a quantidade de banhos e a duração dos banhos. Para nós brasileiros o hábito de tomar banhos longos e vários durante o dia é tão natural, que a mudança desse hábito simples é muitas vezes desagradável. Isso pode gerar emoções negativas, que vão desde desconforto por não ter tomado mais de um banho, até culpa por ter tomado, já que não há água abundante. Mais uma vez crenças de incapacidade, de não conseguir fazer nada direito podem ser ativadas e pensamentos autodepreciativos podem ocorrer, afetando sua autoestima e equilíbrio emocional.

Conclusão

autoestima

Como vimos ao longo desse artigo, viver em outro país não é uma tarefa lá tão fácil. O número grande de mudanças pode gerar muito desconforto e desequilíbrio emocional. O nível de exigência consigo mesmo é alto e as expectativas muitas vezes não correspondem à realidade. Tudo isso sem a segurança dos familiares e amigos mais antigos por perto. A condição do expatriado é mais vulnerável, por estar exposto a grandes mudanças, sem o conforto do que lhe é familiar e portando do que lhe dá segurança. Sendo assim, é de fundamental importância que você faça um exercício de auto-observação, para que conheça as suas emoções e busque mapear quais são as situações externas que lhe afetam mais. Tendo consciência do que lhe incomoda, fica mais fácil combater o desconforto emocional.

 

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Última atualização deste post: 18/06/2017

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