Muitas vezes, as expectativas de quem fica são grandes e os desejos caros. E o emigrante, mesmo sem querer, termina vestindo a carapuça de “rico”, reforçando tal preconceito ao levar muitos presentes para parentes e amigos no Brasil, ao pagar as contas em bares e restaurantes e ao se gabar de seu “vidão” por aqui, sem perceber que está entrando em uma armadilha da qual não dá para sair facilmente.

Entenda esse fenômeno e aprenda a se defender contra expectativas exageradas de quem acha que você ficou rico ao mudar para outro país.

Como se fosse fácil ficar rico no exterior…

Recordo-me de minha vinda para a Alemanha. Os últimos dias antes de minha viagem para cá foram bastante corridos, com muitas coisas para resolver. No meio desse sufoco, fui a uma festa de despedida organizada por uma comunidade católica, em Salvador, na qual eu era ativo.

A festa foi tranquila, as pessoas foram muito simpáticas e tudo correu bem até que, no final, aconteceu algo meio surreal, que me deixou abismado: as pessoas vinham até mim, se despediam, mas algumas vinham com uma lista de coisas que queriam que eu trouxesse da Alemanha quando regressasse ao Brasil.

Os pedidos eram os mais variados, alguns esquisitos e caros (!). Lembro-me de um senhor, que eu mal conhecia, que pediu um Rolex, especificando modelo, cor e tudo. Já um homem jovem, de minha idade na época, teve realmente a coragem de me perguntar se seria muito difícil mandar um Mercedes por navio, pois esse seria o carro dos seus sonhos. E isso sem falar dos pedidos menores.

Fiquei primeiro sem compreender direito e até desconfiei que se tratava de uma brincadeira, só entendendo mais tarde que a coisa era séria, muito séria: algumas pessoas realmente acreditavam que eu, por estar indo para a Alemanha, iria ficar rapidamente rico, muito rico, tão rico que não seria nada demais para mim realizar todos aqueles desejos materiais.

Uma ideia enraizada na cabeça de nosso povo

Com o passar dos anos, em minhas estadias de férias no Brasil, fui percebendo ainda mais claramente como essa ideia do “expatriado rico” está enraizada na cabeça de nosso povo. Ingênuo e com boa vontade, eu fazia questão de levar presentes para a família, mas também para vizinhos e amigos. Como na época o marco alemão valia muito mais que a moeda brasileira (qual era mesmo: cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruz-credo?), eu ainda pagava as contas quando saía com amigos para almoçar, jantar ou simplesmente beber alguma coisa, reforçando ainda mais, sem querer e perceber, esse pensamento deturpado das pessoas.

Isso, que no início parecia algo inofensivo, foi piorando com o tempo. Os presentes, que antes eu levava com prazer e voluntariamente, tornaram-se uma obrigação, pois eu sabia das expectativas. As “coisinhas” que eu levava foram se transformando em “coisonas” e eu me estressava muito com os preparativos de minha viagem, correndo atrás das coisas mais absurdas desejadas por um ou outro.

Algumas pessoas, com aperto financeiro, aguardavam ansiosas por minha chegada, pois acreditavam que eu, rico (!), resolveria seus problemas, “emprestando” dinheiro ou pagando suas dívidas. A coisa foi chegando ao ponto de muita gente nem mais perguntar como eu estava, como era minha vida por aqui: elas já chegavam reclamando da vida, contando naturalmente com meu suporte financeiro.

Não adianta explicar como realmente é

E não adiantava dizer que a vida aqui também não é fácil, que também aqui se tem que trabalhar duro para ganhar o pão de cada dia e que eu não era rico. Não, isso não entrava na cabeça das pessoas, que insistiam em crer que o dinheiro aqui anda espalhado pela rua, que basta sair, se abaixar e catar a quantia necessária.

Quando percebi que a coisa não tinha solução, que jamais conseguiria saciar tais desejos das pessoas e que elas nunca enxergariam a realidade como realmente é, já que não queriam enxergar, resolvi dar um corte, deixei de levar presentes e comecei a fazer questão de contar como se vive realmente por aqui, apontando as dificuldades.

Muita gente reage com hostilidade quando o expatriado diz não

Só que aí fiz então outra experiência que me deixou ainda mais assustado: houve quem reagiu com hostilidade, me acusando de ganância e egoísmo, de ser alguém que só pensava em si mesmo, que se negava a ajudar “os pobres” conterrâneos, que viviam em um Brasil miserável, enquanto vivia num suposto luxo na Alemanha.

E que ninguém pense que estou falando somente de gente de baixa renda. Sofri acusações também (e até mais!) de pessoas com dinheiro! Lembro-me de um amigo que tem um cargo alto, ganha bem, muito bem, bem mais que eu, mas que sempre reclama por eu nunca ter pago sua passagem para que ele pudesse vir passear na Europa.

Isso afeta muitos expatriados

Achei no início que era um problema meu e das pessoas que conhecia, mas, com o passar do tempo, vi que isso afeta também outros brasileiros (e também outros latino-americanos).

Ainda na semana passada, por exemplo, estava conversando com uma conhecida brasileira que vive em Berlim e ganha a vida por aqui fazendo faxinas e trabalhando duro. Ela estava desesperada, tentando conseguir um empréstimo, pois seu irmão pedira a ela a irrisória quantia de 15 mil euros para comprar um carro.

Ela estava de viagem marcada para o Brasil e já tinha raspado literalmente todo seu dinheiro para pagar as passagens dela e da filha e para comprar diversos presentes desejados pelos parentes e amigos.

Ao invés de dizer ao irmão que não possuía tanto dinheiro, ela estava disposta a se endividar para satisfazer seu desejo.

Percebi mais uma vez a que ponto podem chegar as expectativas da família e amigos no Brasil e que os próprios emigrantes alimentam muitas vezes essa imagem de “rico” ao atender tais desejos absurdos de quem tem uma imagem completamente errada de como é a vida de um brasileiro no exterior.

Foi depois dessa conversa com ela que resolvi escrever este texto, na esperança de poder talvez ajudar um ou outro a não passar pela mesma situação.

Deixe de ser besta!

Se você também é vítima das expectativas e desejos daqueles que lá ficaram, digo-lhe o mesmo que disse a essa brasileira que queria tomar um empréstimo para o carro do irmão: deixe de ser besta!

Você jamais conseguirá satisfazer o que as pessoas querem, pois elas vão querer sempre mais. Hoje um celular, amanhã uma câmera, depois um iPad e assim por diante. E o pior de tudo: ninguém jamais vai valorizar seus esforços, pois, para eles, tudo isso custa muito pouco por aqui e, por você ser rico, é natural que você atenda seus desejos, por mais absurdos e egoístas que sejam.

A coisa piora se você gostar de ser visto como “rico”, tentando manter essa fachada, confundindo o interesse das pessoas com amor e admiração. Faça isso e não demorará muito para você se quebrar financeiramente, sem que ninguém realmente reconheça o que você fez. E você vai perceber que, sem nenhum dinheiro, você deixará rapidamente de ser interessante.

Algumas dicas, que talvez ajudem a evitar que você caia nessa armadilha:

  • Sim, leve presentes, mas somente para as pessoas mais próximas e que realmente gostam de você (independente de você levar presentinhos ou não). Leve presentes porque quer levar, mas não por causa das expectativas de quem quer que seja. Carinho não se compra com presentes. Ou é verdadeiro ou não é carinho!
  • Não aceite a carapuça de “rico”, deixe claro que você trabalha duro para ganhar a vida e tenha cuidado com desejos exagerados dos outros. Fique atento à tentação de querer se sentir “rico”, por mais agradável que isso possa ser para você, pois, no final, essa tentação (=ilusão) sai bem cara.
  • Quando sair com parentes ou amigos, nunca assuma a conta sozinho, não pague pelo consumo excessivo de ninguém e deixe claro que você não é rico e nem besta.
  • Se alguém lhe procurar para pedir dinheiro, ao invés de ficar desconcertado e sem saber o que dizer, diga a ele que você também está apertado financeiramente e que estava até pensando em pedir dinheiro emprestado a ele. Ele mudará de assunto rapidinho.
  • Tenha cuidado com aqueles que lhe procuram só para pedir alguma coisa. Você percebe facilmente que há algo de errado se esse alguém, que ficou meses ou anos sem lhe ver, não mostrar nenhum interesse real em saber como você está e for relativamente direto ao assunto.Mas tenha cuidado também com quem não pede nada diretamente, mas só fica reclamando o tempo todo de como sua própria vida está difícil. Esses “reclamadores da vida” são até piores que os diretos, pois eles apostam em chantagem emocional.

E se alguém lhe chamar de egoísta, supondo que você é “rico” porque vive no exterior, onde dinheiro cai do céu, chame ele para vir catar dinheiro na rua junto com você. Duvido que ele queira 😉

O autor:

Blogueiro. “Escrevo sem luvas porque tocar é importante”.


 

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