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Sempre sou confrontado com esta pergunta:

Você é mais brasileiro ou alemão?

Acho que seja uma pergunta legítima, já que nasci e cresci no Brasil e assim sou brasileiro. Mas vivo há quase trinta anos na Alemanha, possuo ambas as nacionalidades, estou hoje completamente integrado na sociedade alemã e, assim, também sou alemão.

Agora, se sou mais brasileiro ou alemão, isso não é pergunta tão fácil de responder, já que isso significaria me definir, o que, por sua vez, definiria meus limites e limites sempre definem uma prisão, mas preso não estou e nem quero estar.

Quando cheguei à Alemanha pela primeira vez, confesso que me senti logo em casa. De repente, me vi confrontado com gente pontual, que não gostava de atrasos, que via isso como falta de respeito por quem espera, que não gostava de enrolações e jeitinhos, assim como eu. Sim, como eu, que sofria muito com essas coisas na Bahia.

Por outro lado, o contraste servia como espelho e me mostrava o quanto de Brasil eu carregava dentro de mim.

Vivi assim por muito tempo, sem me preocupar se era uma coisa ou outra, até o dia que chegou a primeira crise, essa crise que todo emigrante conhece e pela qual qualquer um que sai de sua terra termina passando mais cedo ou mais tarde (leia mais aqui: Vida de emigrante: quando a crise chega e o coração aperta…). Entrei em crise e me senti deslocado, sem saber direito onde seria meu lugar. Para resolver o assunto, me defini como brasileiro com fortes características alemãs, mas essa definição só serviu para aquele momento.

Não demorou muito para eu voltar ao Brasil e perceber que já não era (ou talvez nunca tenha sido) tão brasileiro assim, pois me senti também deslocado, um peixe fora d’água, mesmo se a água me era familiar.

Já não me acostumava com os barulhos e as gritarias, às erupções emocionais do povo e dos abraços e beijos inflacionados de gente que nunca tinha me visto antes, mas já me chamava de amigão do peito. E me vi deparado com brasileiros que não perdiam qualquer chance de me dizer que eu não seria mais dali.

De volta à Alemanha, fiquei mais confuso ainda ao me ver deparado com certos alemães (gente besta que há em todo canto!) que não perdiam qualquer chance de me dizer que eu também não seria daqui.

O tempo foi passando e eu, buscando meu lugar e minha paz interior, tentando me definir de alguma forma, concluí que eu era as duas coisas: brasileiro e alemão.

Mas nos desenvolvemos, o tempo nos muda e nos faz crescer (quando estamos abertos para isso!) e atingi outro patamar, mais livre, mais coerente, quando entendi que não era nem uma coisa nem outra, já que meu lugar não é o Brasil, nem a Alemanha, mas sim o mundo ou, mais amplamente, o universo.

Hoje sei que eu sou eu e evito rótulos. Mas sei que tenho uma história, uma história que começou na Bahia, prosseguiu na Alemanha e continuará prosseguindo onde eu estiver, independentemente de onde for esse lugar. Talvez estarei amanhã na China, na Austrália ou mesmo no Alasca, mas saberei, de uma forma ou de outra, que estarei em casa, pois tanto a China, a Austrália e o Alasca se encontram no mesmo universo que vivo.

É claro que isso não significa que não faz diferença onde se vive, pois faz, já faz diferença até mesmo se alguém vive no primeiro ou no último andar de um prédio, imagine então quando se vive em outro país!

Hoje, vivo há mais tempo na Alemanha que vivi no Brasil e alguém poderia achar que isso me tornaria automaticamente mais alemão, mas não é bem assim, já que os 22 anos que vivi no Brasil foram os primeiros 22 anos de minha vida e incluem a infância, que marca muito mais que qualquer eternidade em outro canto.

Assim, tenho o Brasil dentro de mim, com carinho, mas também com tristeza, preocupação e decepção por ver tantos conflitos e um povo que sofre por estar entregue a um sistema político perverso, corrupto e incompetente. E carrego comigo também a Alemanha, que me deu e ensinou muito, que é hoje meu “acampamento”, que é onde fui bem acolhido e vivo tranquilo e que se tornou uma parte inseparável de mim.

Mas então, sou mais alemão ou mais brasileiro? Nenhuma das duas opções! O que sei hoje é que sou mais gente, mais eu, mais completo e livre do que seria se fosse dar mais ênfase a qualquer um dos lados meus. Esse questionamento me fez refletir muito sobre os conceitos de nação e nacionalidade, de cultura e mentalidade e me fez perceber que não é muito inteligente se deixar entocar em qualquer gaveta, tanto faz qual.

Eu sou eu. Só isso.