Os casos nominativo acusativo, dativo e genitivo
“Bicho malvado! Nunca vou aprender esse diacho de acusativo, dativo e genitivo!”, disse-me uma moça brasileira, já desesperada por não entender os casos alemães. Ela e muitos outros se desesperam por não compreender e eu me desespero por não conseguir explicar de uma forma que eles entendam.
Estava pensando no assunto e resolvi tentar explicar mais uma vez, talvez de uma forma menos convencional. Percebi que os próprios nomes dos casos já passam uma ideia da diferença entre eles.
É claro que a matéria é um pouco mais complexa e há outras aplicações dos casos alemães, mas penso que essa noção básica pode ajudar na diferenciação para quem está começando.
Vejamos os quatros casos alemães:
Olhe bem cada uma dessas palavras. Que noção elas lhe passam?
Perceba que
- nominativo se refere a nome
- acusativo passa a ideia de acusar/acusação
- dativo passa a ideia de dar
- e genitivo a ideia de Gênese, de começo, origem, genitor – o genitivo é “o que marca a origem”
O nominativo
Então, o nominativo, por se referir ao nome (normalmente o sujeito da frase, quem pratica a ação), fica inalterado:
Eu fica eu mesmo -> ich
Der Mann (o homem) fica der Mann
No nominativo, a palavra assume sua forma original, sem qualquer mudança. Se você diz, por exemplo, „A mulher é bonita“, a mulher (die Frau) é o sujeito da frase e fica sempre assim mesmo:
Die Frau ist schön.
Acho que até aqui não há maiores dificuldades de compreensão. Vamos então ver o caso acusativo:
O acusativo
A palavra acusativo passa a ideia de acusação, que pode ser no sentido de indicar ou apontar, mas também de acusar alguém de alguma coisa, que é o sentido que gostaria de usar para tentar explicar esse caso:
acusar = beschuldigen
O verbo “beschuldigen” vem de “Schuld” (= culpa)
beschuldigen = culpar, acusar, responsabilizar alguém por alguma coisa.
Se acuso alguém de algo, esse alguém é quem sobre a ação (acusação) praticada pelo sujeito (eu). Esse alguém é o objeto direto da frase e fica, portanto, no acusativo.
Eu acuso você! = Ich beschuldige dich!
Ele acusa o homem = Er beschuldigt den Mann
Aqui o acusativo é quem sofre a acusação, o que vale do mesmo jeito para qualquer outra ação:
Eu vejo você = Ich sehe dich
Aqui você (du) é visto por mim (ich), sendo o objeto direto da frase e passando para o acusativo (dich)
Outros exemplos:
Ele vê o homem = Er sieht den Mann
Der Mann (o homem) é quem é visto, sofre a ação e passa para o acusativo den Mann.
A mulher come o peixe = Die Frau isst den Fisch
Der Fisch (o peixe) é comido pela mulher, sofre a ação e passa para o acusativo den Fisch
Portanto, o acusativo é na frase quem sofre uma ação direta do sujeito (nominativo).
O dativo
Um dos melhores verbos para explicar o dativo é mesmo dar, pois ilustra muito bem. Veja só:
Normalmente se dá algo a alguém. O algo, o que é dado, o que sofre a ação, é o objeto direto, que já vimos acima, ou seja: o acusativo. Mas, e esse alguém, que também sofre a ação, mas indiretamente, já que recebe aquilo que foi dado? Esse alguém é o objeto indireto e, assim, o dativo.
Exemplo:
Eu lhe dou o pão = ich gebe dir das Brot
Eu (nominativo) dou o pão (o acusativo) a você (dativo) = Ich (Nominativ) gebe dir (Dativ) das Brot (Akkusativ)
O mesmo vale nesta frase:
A professora dá uma caneta ao aluno = Die Lehrerin gibt dem Schlüler einen Stift.
Repare só só uma coisa:
Vimos acima, no acusativo, que uso dich para dizer que você sofre uma ação praticada pelo sujeito da frase:
Ele vê você = Er sieht dich
Agora repare o que aconteceria se eu usasse o dich também para o verbo dar:
Se você dissesse Ich gebe dich, ao invés de Ich gebe dir (etwas), isso não significaria que você estaria dando algo a mim, mas que você estaria dando minha pessoa; não significaria estou dando (algo) a você, mas estou dando você, o que, nesse contexto, não faria sentido.
Por isso se usa aqui o dativo, que quer dizer que a ação sofrida é indireta. Você não está sendo dado, mas recebendo o que está sendo dado.
Outro verbo interessante para entender o dativo é o verbo wünschen (desejar). Você acorda de manhã cedo e deseja a alguém que gosta um dia maravilhoso:
Ich wünsche dir einen wundervollen Tag!
Aqui é a mesma coisa:
O que você deseja é um dia maravilhoso (einen wundervollen Tag). Esse é o objeto direto, o que é desejado, portanto, o acusativo.
A pessoa a quem você deseja o dia maravilhoso é o objeto indireto e aqui se usa o dativo (dir).
Portanto,
- quem dá é o nominativo,
- o que ele dá é o acusativo e
- a quem ele dá é o dativo.
Ou com desejar:
- quem deseja é o nominativo,
- o que se deseja é o acusativo e
- a quem se deseja é o dativo.
O genitivo
Para mim, o genitivo é bem mais fácil que sua fama. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Acho que brasileiros só têm dificuldades por não existir em português.
O genitivo tem a ver com origem e com ligações entre palavras. Die Nase des Kindes (o nariz da criança) mostra bem isso, a relação entre Nase (nariz) e Kind (criança), deixando claro que o nariz pertence à criança, que não é um nariz qualquer, mas sim o nariz da criança. Sem o genitivo, escreveríamos die Nase vom Kind (die Nase VON + DEM Kind), usando von com o dativo, mas que não soa muito elegante.
A população do Brasil em alemão, sem usar o genitivo, seria
Die Bevölkerung von Brasilien
com o genitivo
Die Bevölkerung Brasiliens ou Brasiliens Bevölkerung
Muita gente tem medo do genitivo e o evita, recorrendo ao dativo em seu lugar. Algumas preposições exigem o emprego do genitivo (como wegen), mas é comum então se escutar “wegen dem” ao invés de “wegen des”.
Penso que o genitivo, além de ajudar muito ao formular frases, torna o alemão mais bonito, mais melódico. Des Vaters Sohn ou der Sohn des Vaters soa para mim bem mais bonito que der Sohn vom Vater.
Bom, espero ter ajudado a entender pelo menos um pouco melhor “esse diacho de dativo, acusativo e genitivo” 😉


