Recordo-me de minha vinda para a Alemanha. Tinha planos de ficar por um ano, mas até hoje, 24 anos depois, ainda estou por aqui. Vivi e conquistei muitas coisas, mas se tem uma coisa que não consegui foi ficar rico, contrariando quem ficou e acreditou que eu logo voltaria para compartilhar minha riqueza.
Os últimos dias antes de minha primeira viagem para cá foram bastante corridos, com muitas coisas para resolver. No meio desse sufoco, fui a uma festa de despedida organizada por amigos e conhecidos.
A festa foi tranquila, as pessoas foram muito simpáticas e tudo correu bem até que, no final, aconteceu algo meio surreal, que me deixou abismado: tinha gente que eu nunca tinha visto antes, mas que vinha até mim, se despedia e expressava algum desejo, algo que queria que lhe trouxesse da Alemanha quando regressasse ao Brasil. Os pedidos eram os mais variados, alguns esquisitos e bem caros. Lembro-me de um senhor, que eu mal conhecia, que pediu um Rolex, especificando modelo, cor e tudo. Já um homem jovem, de minha idade na época, teve realmente a coragem de me perguntar se seria muito difícil mandar um Mercedes por navio, pois esse seria o carro dos seus sonhos. Sem falar dos inúmeros pedidos menores, como chocolate e perfume. Certas pessoas ali realmente acreditavam que eu, por estar indo para a Alemanha, iria ficar rapidamente rico, muito rico, tão rico que não seria nada demais para mim realizar todos aqueles desejos materiais.
Com o passar dos anos, em minhas estadias de férias no Brasil, fui percebendo ainda mais claramente como essa ideia do “emigrante rico” está enraizada na cabeça de nosso povo. Ingênuo e com boa vontade, eu fazia questão de levar presentes para a família, mas também para vizinhos e amigos. Como na época o marco alemão valia muito mais que a moeda brasileira (qual era mesmo: cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruz-credo?), eu ainda pagava as contas quando saía com amigos para almoçar ou jantar, reforçando ainda mais, sem querer e perceber, esse pensamento deturpado das pessoas.
E isso, que no início parecia algo inofensivo, foi piorando com o tempo. Os presentes, que antes eu levava com prazer e voluntariamente, tornaram-se uma obrigação, pois eu sabia das expectativas. As “coisinhas” que eu levava foram se transformando em “coisonas” e eu me estressava muito com os preparativos de minha viagem, correndo atrás das coisas mais absurdas desejadas por um ou outro. E isso não era tudo: algumas pessoas, com aperto financeiro, aguardavam ansiosas por minha chegada, pois acreditavam que eu, rico (!), resolveria seus problemas, “emprestando” dinheiro ou pagando suas dívidas.
A coisa foi chegando ao ponto de muita gente nem mais perguntar como eu estava, como era minha vida por aqui: as pessoas já chegavam reclamando da vida, contando naturalmente com meu apoio financeiro. E não adiantava dizer que a vida aqui também não seria fácil, que também aqui se tem que trabalhar duro para ganhar o pão nosso de cada dia e que eu simplesmente não era rico. Não, isso não entrava na cabeça das pessoas, que insistiam em crer que o dinheiro aqui anda espalhado pela rua, que basta sair, se abaixar e catar a quantia necessária.
Quando percebi que a coisa não tinha solução, que jamais conseguiria saciar tais desejos das pessoas e que elas jamais veriam a realidade como é, resolvi dar um corte, deixei de levar presentes e comecei a fazer questão de contar como se vive realmente por aqui, apontando as dificuldades, mas fiz então outra experiência que me deixou ainda mais assustado: houve quem reagiu com hostilidade, me acusando de ganância e egoísmo, de ser alguém que só pensava em mim mesmo, que se negava a ajudar “os pobres” conterrâneos, que viviam em um Brasil miserável, enquanto eu vivia no maior luxo na Alemanha… E engana-se quem pensa que tal reação veio somente de gente pobre, pois sofri acusações também de pessoas com dinheiro, algumas que ganhavem bem mais do que eu! Lembro-me de um amigo que tem um cargo alto no governo baiano, que ganha um salário muito maior que o meu, mas que até hoje reclama por eu nunca ter pago sua passagem para que ele pudesse vir “me visitar” na Alemanha e passear na Europa.
Vi que isso afeta também outros brasileiros (e também outros latino-americanos). Ainda na semana passada, por exemplo, estava conversando com uma conhecida brasileira que vive em Berlim e ganha a vida por aqui fazendo faxinas e trabalhando duro. Ela estava desesperada, tentando conseguir um empréstimo, pois seu irmão pedira a ela a irrisória quantia de 10 mil euros para comprar um carro. Ao invés de dizer a ele que não possui tanto dinheiro, ela, que estava de viagem marcada para o Brasil e já tinha raspado literalmente todo seu dinheiro para pagar as passagens dela e da filha e para comprar diversos presentes para parentes e amigos, estava disposta a se endividar para satisfazer o desejo do irmão. Ali estava mais alguém preso na armadilha do “emigrante rico”, alimentando ela mesma seu sofrimento por não dizer claramente não a um pedido absurdo de uma pessoa sem vergonha.
Se você vive no exterior e também é vítima das expectativas e desejos exagerados daqueles que no Brasil ficaram, digo-lhe o mesmo que disse a essa conhecida que queria tomar um empréstimo para o carro para o irmão: deixe de ser besta! Você jamais conseguirá satisfazer o que as pessoas esperam, pois vão querer sempre mais. Hoje um smartphone, amanhã um tablet e assim por diante. O pior de tudo é que ninguém jamais vai valorizar seus esforços, pois, para eles, tudo isso custa muito pouco por aqui e, por você ser rico, é natural que você atenda seus desejos, por mais egoístas que sejam. E se você gostar de ser visto como “rico”, tentando manter essa fachada, confundindo o interesse das pessoas com amor e admiração, não vai demorar muito para você se quebrar financeiramente, sem que ninguém realmente reconheça o que você fez.
Algumas dicas, que talvez ajudem a evitar que você caia nessa armadilha do “emigrante rico”:
- Sim, leve presentes, mas somente para as pessoas mais próximas e que realmente gostam de você (independente de você levar presentinhos ou não). Carinho não se compra com presentes. Ou é verdadeiro ou não é carinho!
- Não aceite a carapuça de “rico”, deixe claro que você trabalha duro para ganhar a vida e tenha cuidado com desejos exagerados de quem quer que seja. Tenha cuidado com a tentação de querer se sentir “rico”, por mais agradável que isso seja para você, pois, no final, essa ilusão sai cara.
- Quando sair com parentes ou amigos, nunca assuma a conta sozinho, não pague pelo consumo excessivo de ninguém e deixe claro que você não é nem rico e nem besta.
- Se alguém lhe procurar para pedir dinheiro, ao invés de ficar desconcertado e sem saber o que dizer, diga não e experimente dizer que você também está apertado financeiramente e que estava até pensando em pedir dinheiro emprestado a ele. Observe como a pessoa vai ter um motivo importantíssimo para ir embora.
- Tenha cuidado com aqueles que lhe procuram só para pedir alguma coisa. Você percebe facilmente que há algo de errado se esse alguém, que ficou meses ou anos sem lhe ver, não mostrar nenhum interesse real em saber como você está e for logo falando de situação difícil e dinheiro. Mas tenha cuidado também com quem não pede nada diretamente, mas vem reclamando o tempo todo de como sua própria vida está difícil, também sem se interessar realmente por você. Esses “lamentadores da vida” são até piores, pois eles apostam em chantagem emocional.
E se alguém lhe chamar de egoísta, dizendo que você é “rico”, pois vive no exterior, onde dinheiro chove na rua, ofereça a ele seu sofá em sua casa aqui e diga que ele também pode vir catar dinheiro na rua junto com você. Duvido que ele queira 😉


